Uma tese de doutorado da Universidade do Vale do Taquari (Univates) identificou 109 espécies de plantas utilizadas com finalidade medicinal por raizeiros e moradores de Alta Floresta e Carlinda, no norte de Mato Grosso. A pesquisa, divulgada pela instituição nesta segunda-feira (17 de agosto de 2026), reuniu durante três anos informações sobre o conhecimento tradicional relacionado à flora do sul da Amazônia mato-grossense.
O trabalho foi desenvolvido pela pesquisadora Maria Ilmalucia Teixeira no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD), com orientação do professor Eduardo Périco e coorientação da professora Carla Kauffmann. Ao todo, foram entrevistados dez raizeiros, considerados especialistas tradicionais no uso terapêutico de plantas, além de 300 moradores da região. A pesquisa combinou entrevistas, observação de campo e análises estatísticas.
A primeira etapa da investigação ouviu dez raizeiros de quatro comunidades rurais de Alta Floresta: Nossa Senhora de Guadalupe, Nova Alvorada, Santa Lúcia e Terra Santa. As entrevistas foram complementadas por caminhadas guiadas pelos próprios participantes, durante as quais as plantas foram fotografadas e posteriormente identificadas e comparadas com bases científicas.
Na segunda etapa, a pesquisadora entrevistou 300 moradores, sendo 150 residentes na zona urbana de Alta Floresta e outros 150 moradores da zona rural de Alta Floresta e Carlinda. A coleta dos dados ocorreu entre abril e dezembro de 2022, e o trabalho foi submetido aos procedimentos de ética em pesquisa, com aprovação pelo Comitê de Ética da Univates e pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).
Entre as espécies mais citadas estão assa-peixe, losna, arnica, calêndula, carqueja, guaco, boldo, erva-cidreira e barbatimão. A pesquisa identificou que 38 das 109 espécies registradas já aparecem na lista oficial de plantas de interesse do Sistema Único de Saúde (SUS). A maioria das plantas identificadas, 67%, é nativa da região, evidenciando a ligação entre o conhecimento tradicional e a biodiversidade amazônica.
Outro resultado destacado pela pesquisa envolve a transmissão desse conhecimento. As mulheres tiveram participação expressiva entre os entrevistados e apresentaram maior conhecimento sobre espécies medicinais do que os homens nos grupos analisados. Na área urbana, elas representaram 75% dos entrevistados, enquanto na zona rural corresponderam a 59%.
A comparação entre moradores urbanos e rurais também revelou diferenças no conhecimento sobre as plantas. Os moradores rurais citaram mais espécies por comunidade do que os moradores urbanos por bairro, mas a distinção entre os grupos ocorreu principalmente pelas espécies escolhidas, mostrando que tanto o campo quanto a cidade mantêm conhecimentos próprios relacionados ao uso medicinal da flora local.
Um dos achados que recebeu atenção especial está relacionado à saúde pública. Mais da metade dos entrevistados das áreas urbana e rural afirmou não informar aos médicos que utiliza plantas medicinais. A tese aponta que isso pode ocorrer porque algumas pessoas acreditam que o uso não oferece riscos ou porque os profissionais de saúde não perguntam sobre esse tipo de prática. A pesquisa ressalta, porém, que nem toda planta considerada medicinal é necessariamente segura para todos os usos.
O estudo também encontrou uma relação estatisticamente significativa entre a quantidade de vezes que uma planta foi mencionada pelos raizeiros e o número de registros da espécie em herbários científicos. Essa relação foi ainda mais forte quando consideradas apenas as espécies nativas. Segundo a pesquisa, o resultado indica que os raizeiros tendem a utilizar plantas mais abundantes no ambiente em que vivem, o que pode contribuir para a valorização da vegetação local.
Para a Univates, o conhecimento registrado pela tese possui importância que ultrapassa a documentação cultural. A pesquisa aponta que o levantamento pode servir de base para futuras investigações fitoquímicas e farmacológicas e contribuir para discussões relacionadas à Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e às práticas integrativas oferecidas pelo SUS.
A tese também documentou uma prática conhecida entre os raizeiros entrevistados como método “Biodigital” ou Método Bioenergético de Tratamento Natural, denominado Aramim. A prática foi registrada como parte dos atendimentos realizados pelos participantes, sem que a divulgação da universidade a apresente como tratamento médico cientificamente comprovado.
A pesquisa ganha relevância regional porque, segundo a Univates, ainda existem poucos estudos sistemáticos sobre etnobotânica nessa porção da Amazônia mato-grossense. Ao concentrar o levantamento em Alta Floresta e Carlinda, o trabalho registra parte do conhecimento tradicional existente na região e sua relação com a biodiversidade, ao mesmo tempo em que aponta a necessidade de preservar esse patrimônio cultural e aprofundar a investigação científica sobre as espécies utilizadas.














