Estrela entra em recuperação judicial após crise financeira

A tradicional fabricante brasileira de brinquedos Estrela entrou com pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira, 20 de maio de 2026, em meio a dificuldades financeiras acumuladas nos últimos anos. O processo foi protocolado na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, cidade onde está localizada a principal unidade fabril da companhia. O requerimento envolve a Manufatura de Brinquedos Estrela S.A. e outras sete empresas do grupo, totalizando oito sociedades incluídas na ação.

Fundada em 1937, a Estrela é um dos nomes mais conhecidos da indústria de brinquedos no Brasil e afirmou, em comunicado ao mercado, que a recuperação judicial tem como objetivo reorganizar o passivo financeiro e preservar a continuidade das operações. Segundo a companhia, fatores como aumento do custo de capital, restrições de crédito, mudanças no comportamento de consumo das famílias e a concorrência crescente de produtos digitais e importados agravaram a situação financeira do grupo.

A empresa informou que a atual administração permanecerá à frente dos negócios durante todo o processo judicial. A expectativa é de que um Plano de Recuperação Judicial seja apresentado aos credores nas próximas etapas da tramitação. A companhia também destacou que busca preservar empregos, manter as atividades industriais, comerciais e administrativas e garantir a relação com fornecedores, clientes e parceiros.

O pedido ocorre apenas sete meses após a Estrela fechar um acordo considerado estratégico com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para renegociar dívidas tributárias acumuladas desde os anos 2000. Em setembro de 2025, a companhia conseguiu renegociar R$ 747,8 milhões em débitos fiscais. Com descontos que chegaram a 65% sobre juros, multas e encargos, além do uso de créditos tributários e depósitos judiciais, o valor foi reduzido para cerca de R$ 72,4 milhões, parcelados em até dez anos.

Apesar do alívio obtido com o acordo tributário, a empresa continuou enfrentando dificuldades operacionais e financeiras. Em 2024, a Estrela registrou prejuízo líquido de R$ 24,3 milhões, impactada principalmente pela baixa produção durante o período natalino e pelos desafios estruturais do setor. Esta não é a primeira vez que a fabricante recorre à recuperação judicial. A companhia já havia passado por processos semelhantes em 2004 e 2008.

O cenário reflete uma crise mais ampla da indústria nacional de brinquedos, pressionada pela concorrência de produtos importados, especialmente da China, além da alta nos custos de matérias-primas, energia e logística. O setor também enfrenta mudanças profundas no comportamento infantil, com migração crescente do consumo para jogos digitais, aplicativos e plataformas de entretenimento online.

Mesmo diante das dificuldades, a Estrela mantém marcas históricas e produtos que fazem parte da memória afetiva de gerações de brasileiros, como Banco Imobiliário, Detetive, Genius, Autorama, Susi, Super Massa e Pogobol. Ainda assim, a companhia enfrenta limitações de escala, capital e capacidade de inovação diante da concorrência de gigantes globais do setor, como Mattel e Hasbro, com quem já travou disputas judiciais relacionadas a royalties e direitos de produtos.

Com o pedido de recuperação judicial, ficam temporariamente suspensas ações de cobrança e execuções contra o grupo, permitindo que a empresa continue operando enquanto negocia com credores. O processo seguirá na Justiça de Minas Gerais e deverá envolver análise do deferimento do pedido, apresentação do plano de recuperação e posterior votação pelos credores. O mercado acompanha os próximos passos da empresa, listada na B3 sob os códigos ESTR3 e ESTR4, considerada um dos maiores símbolos da indústria de brinquedos do país.

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