O Brasil reforça sua importância no abastecimento mundial de alimentos em um momento de maior volatilidade no mercado internacional, marcado por eventos climáticos, tensões geopolíticas e problemas logísticos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra brasileira de grãos 2025/26 alcance 361,7 milhões de toneladas, alta de 2,6% em relação ao ciclo anterior. O resultado inclui recordes projetados para soja, milho e algodão e mantém o país entre os principais fornecedores agrícolas do mercado global.
Os dados mais recentes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) também mostram o peso do setor externo. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações da agropecuária somaram US$ 57,85 bilhões, crescimento de 9,45% em comparação com o mesmo período de 2025. A soja respondeu por US$ 39,42 bilhões desse total, com avanço de 15,16% nas vendas externas. Animais vivos e algodão também registraram crescimento no período, enquanto milho e café tiveram retração nas exportações.
Apesar do desempenho produtivo e comercial, o custo dos insumos continua sendo um dos principais pontos de atenção para os produtores brasileiros. O país importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que utiliza, deixando as lavouras expostas às oscilações dos preços internacionais e do câmbio. Segundo análises citadas na reportagem, a relação de troca piorou em 2026: na soja, uma tonelada de MAP passou de uma faixa de aproximadamente 25 a 30 sacas em 2025 para 30 a 35 sacas em 2026. No milho, a relação avançou de cerca de 40 a 50 para 50 a 60 sacas.
A pressão ocorre em um cenário internacional no qual o mercado de alimentos também apresenta maior sensibilidade a riscos climáticos e geopolíticos. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) citados na reportagem indicaram que o Índice de Preços de Alimentos chegou a 133,3 pontos em agosto, alta de 1,9% sobre julho. Ao mesmo tempo, projeções climáticas apontam para a influência do fenômeno El Niño nos próximos meses, acrescentando incertezas às condições de produção em diferentes regiões.
No mercado de soja, a China continua diversificando suas fontes de abastecimento. Dados citados na reportagem mostram que empresas chinesas mantiveram compras de soja dos Estados Unidos nas últimas semanas de agosto, enquanto os embarques brasileiros avançavam. A avaliação apresentada pelo Itaú BBA é que esse movimento está relacionado à estratégia chinesa de manter diferentes fornecedores disponíveis durante os períodos de entressafra de cada região produtora, e não necessariamente a uma perda de competitividade da soja brasileira.
A pressão sobre os custos também começa a influenciar as decisões para as próximas safras. Com a janela de aquisição dos fertilizantes destinados à principal safra de soja praticamente encerrada, o mercado passa a acompanhar a formação dos estoques e as compras de nitrogenados destinados principalmente ao milho segunda safra de 2027. O comportamento dos preços internacionais de fertilizantes, petróleo e gás natural poderá interferir nos custos dessa etapa da produção.
No mercado interno, a redução da área plantada de algumas culturas destinadas principalmente ao consumo brasileiro também chama atenção. A Conab estima queda na produção de arroz, feijão e trigo em relação ao ciclo anterior, com destaque para o trigo, cuja produção projetada para 2025/26 recua 27,1%. No arroz, a estimativa é de 11,08 milhões de toneladas, queda de 13,2%, enquanto a área plantada diminuiu 14%. Segundo a Conab, a redução da área de arroz está relacionada, entre outros fatores, à menor remuneração da cultura e à migração para atividades como soja e milho.
O cenário coloca o agronegócio brasileiro diante de uma combinação de expansão produtiva e pressão de custos. Enquanto a produção e as exportações reforçam a participação do país no abastecimento internacional, a dependência de fertilizantes importados mantém os produtores expostos ao câmbio, às condições do mercado internacional e às questões logísticas. A evolução dessas variáveis será determinante para a rentabilidade das próximas safras e para o equilíbrio entre a produção destinada às exportações e o abastecimento do mercado doméstico.














