O Ministério Público Estadual de Mato Grosso (MPE-MT) denunciou, na terça-feira (3 de novembro de 2026), quatro pessoas investigadas na Operação Agro Fantasma, que apura um suposto esquema de fraudes envolvendo a compra e comercialização de grãos no município de Comodoro, na região oeste de Mato Grosso. Entre os denunciados estão o ex-deputado estadual de Mato Grosso do Sul Sérgio Pereira Assis, de 67 anos, e seu filho, Mário Sérgio Cometki Assis, de 36. Também foram denunciados os empresários Pedro Henrique Cardoso, de 36 anos, e Wanderley Soares Barboza Júnior, de 44. Segundo a acusação, o esquema teria provocado prejuízo de R$ 57,734 milhões ao produtor rural Silvano dos Santos.
A denúncia foi apresentada pelo promotor de Justiça Leoni Carvalho Neto à Vara Cível e Criminal de Comodoro. Os quatro investigados são acusados de estelionato e associação criminosa. Além disso, Pedro Henrique e Mário Sérgio também foram denunciados por suposta destruição e ocultação de provas antes da deflagração da operação policial, em março deste ano. O Ministério Público pede que os acusados sejam responsabilizados pela reparação dos danos, no valor de R$ 57,734 milhões. A apresentação da denúncia representa o avanço do caso para a fase judicial, mas não significa que os envolvidos tenham sido condenados.
Conforme a denúncia, as operações teriam começado em março de 2025, quando Pedro Henrique Cardoso e Mário Sérgio Cometki Assis procuraram o produtor rural Silvano dos Santos, em Comodoro, para negociar a compra de 60 mil sacas de soja. O negócio foi acertado em duas parcelas de aproximadamente R$ 3,1 milhões, que teriam sido pagas integralmente. Para o Ministério Público, os pagamentos iniciais foram utilizados para conquistar a confiança do produtor e ampliar posteriormente o volume das negociações.
Depois de estabelecerem a relação comercial, os investigados teriam alegado dificuldades para conseguir crédito e solicitado autorização para utilizar o nome e a reputação de Silvano dos Santos na aquisição de grãos de outros produtores da região. Dessa maneira, segundo a acusação, as operações cresceram e passaram a envolver volumes expressivos de mercadorias e compromissos financeiros. O Ministério Público também identificou uma negociação envolvendo uma aeronave avaliada em R$ 5,817 milhões, da qual apenas R$ 2,061 milhões teriam sido pagos.
Duas empresas aparecem como peças importantes na investigação: Santa Felicidade Agro Indústria Ltda. e Imaculada Agronegócios Ltda. De acordo com a denúncia, elas teriam sido utilizadas em uma sequência de operações comerciais e fiscais envolvendo soja e outros grãos adquiridos em nome do produtor rural. Os documentos analisados pela Promotoria apontaram situações em que a circulação registrada nas notas fiscais não correspondia ao deslocamento físico indicado nos documentos de transporte das mercadorias.
Relatórios de fiscalização da Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso (Sefaz-MT), citados na denúncia, também apontaram inconsistências na estrutura da empresa Santa Felicidade. Entre os problemas identificados estariam a ausência de instalações compatíveis com o volume declarado de beneficiamento de grãos, consumo insuficiente de energia elétrica e insumos e utilização considerada irregular de créditos vinculados ao Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic). A fiscalização também teria identificado incompatibilidade entre a capacidade financeira declarada de Wanderley Soares Barboza Júnior e a aquisição formal de 100% das cotas da empresa, pelo valor de R$ 2 milhões.
Outro ponto destacado pelo Ministério Público envolve operações de comercialização de grãos com valores considerados incompatíveis. Em um dos exemplos apresentados, uma carga teria sido adquirida pela Santa Felicidade por R$ 51,8 mil e posteriormente repassada à Imaculada por R$ 52,2 mil. Na sequência, a mercadoria teria sido revendida à empresa Usimat por aproximadamente R$ 41 mil, valor cerca de 21% inferior ao registrado na negociação anterior. Para a Promotoria, operações desse tipo reforçam as suspeitas sobre a dinâmica financeira das empresas envolvidas.
A investigação também identificou inconsistências nos registros de transporte de cargas. Em um dos episódios descritos na denúncia, uma carreta teria carregado 47.880 quilos de mercadorias em Comodoro, às 9h02, com destino a Alto Taquari, percurso de aproximadamente 1.124 quilômetros. Entretanto, o mesmo veículo teria registrado outro carregamento em Comodoro às 13h26 do mesmo dia. O intervalo de pouco mais de quatro horas foi considerado incompatível com o deslocamento indicado nos documentos, sendo utilizado pelo Ministério Público como mais um elemento para questionar a correspondência entre os registros fiscais e a movimentação física dos produtos.
A acusação também individualiza a participação atribuída a cada denunciado. Pedro Henrique Cardoso é apontado como responsável pela condução de parte das negociações comerciais e fiscais, além de ter participado da aproximação inicial com o produtor rural. Mário Sérgio Cometki Assis teria integrado a estrutura societária da Imaculada Agronegócios e participado das tratativas e operações financeiras. Sérgio Pereira Assis é acusado de contribuir para sustentar a credibilidade patrimonial do grupo, participando de negociações e articulações financeiras. Já Wanderley Soares Barboza Júnior aparece formalmente como proprietário da Santa Felicidade, empresa apontada como intermediária em diversas operações envolvendo os grãos.
Outro aspecto considerado relevante pelo Ministério Público é a suposta retirada de documentos e eliminação de dados eletrônicos antes da Operação Agro Fantasma, deflagrada em 4 de março de 2026. Segundo a denúncia, Pedro Henrique e Mário Sérgio teriam comparecido à sede da empresa na véspera da ação policial, retirado caixas de documentos e formatado computadores. Para a Promotoria, essas condutas teriam sido realizadas com o objetivo de dificultar a obtenção de provas relacionadas às operações investigadas.
A Polícia Civil de Mato Grosso já havia concluído o inquérito em agosto de 2026, após meses de investigação, e indiciado os quatro envolvidos. Na ocasião, a apuração policial apontou indícios de estelionato e associação criminosa, além de fraude processual atribuída a Pedro Henrique e Mário Sérgio. Com a apresentação da denúncia pelo Ministério Público, o caso passa à análise do Poder Judiciário, que deverá avaliar os elementos apresentados e decidir sobre o recebimento da acusação. Os denunciados terão direito à ampla defesa e ao contraditório, e a responsabilidade criminal de cada um dependerá de decisão judicial.













