Fim da moratória da soja pode elevar em até 30% o desmatamento na Amazônia

Gigantes do comércio de grãos como Cargill, ADM e Bunge anunciaram a retirada da moratória da soja na Amazônia, acordo voluntário que por quase duas décadas ajudou a impedir o avanço da fronteira agrícola sobre áreas recém desmatadas no bioma. A decisão marca uma mudança importante na governança ambiental do setor e pode ter impactos diretos sobre o ritmo de desmatamento no futuro.

A moratória da soja, criada no início dos anos 2000 por grandes traders e indústrias, proibia a compra de soja cultivada em áreas desmatadas após julho de 2008. A adesão das principais empresas garantiu, por muitos anos, que a expansão da soja no Brasil não estivesse diretamente associada ao desmatamento recente na floresta amazônica, mesmo que outras pressões sobre o território continuassem.

A saída das companhias do acordo ocorre em um contexto em que o setor produtivo e entidades de defesa ambiental estão em rota de colisão. Organizações como a Mighty Earth criticam a decisão das tradings, argumentando que a retirada do compromisso pode desencadear uma onda de desmatamento justamente quando o bioma ainda se recupera de pressões históricas e vulnerabilidades associadas às mudanças climáticas.

Especialistas ambientais alertam que, com o fim da moratória, o desmatamento pode aumentar em até 30% na Amazônia em relação a cenários em que o acordo fosse mantido, devido à redução de barreiras comerciais e de rastreabilidade que inibiam a compra de soja associada à derrubada recente de floresta. Essa perspectiva surge em um momento em que dados oficiais ainda apontam queda nos alertas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado nos últimos meses, sinais de que políticas de monitoramento e fiscalização ainda exercem papel importante no controle da perda de vegetação nativa.

O debate segue intenso entre produtores, ambientalistas e autoridades, que buscam equilíbrio entre a expansão da agricultura e a conservação de biomas críticos, como a Amazônia. A continuidade da redução do desmatamento dependerá de políticas públicas, compromissos de mercado e incentivos à produção sustentável, mesmo diante das mudanças nas regras que vinham sendo adotadas há anos.

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