O Paraguai atravessa uma grave crise política e financeira após a destituição do presidente Santiago Peña, de 47 anos, e sua posterior colocação em prisão domiciliar, na sexta-feira (6 de novembro de 2026). A decisão ocorreu em meio às investigações sobre o colapso do Ueno Bank, instituição financeira digital que mantinha relações empresariais anteriores com o então presidente. O caso provocou uma crise institucional, deixou milhões de clientes sem acesso às contas e levantou suspeitas sobre a utilização de recursos públicos no sistema financeiro.
A destituição foi aprovada pelo Senado paraguaio após um processo de impeachment conduzido em caráter extraordinário. Segundo informações da agência espanhola EFE, 44 senadores votaram favoravelmente à remoção de Peña. O ex-presidente havia apresentado sua renúncia na quinta-feira (5), mas o Congresso deu continuidade ao julgamento político. Com a decisão, ele perdeu o mandato e também a prerrogativa constitucional de ocupar uma cadeira vitalícia no Senado, benefício reservado aos ex-presidentes que não tenham sido destituídos por julgamento político.
Pouco depois da votação, o Ministério Público determinou a detenção de Peña, que passou a cumprir prisão domiciliar em sua residência, na capital Assunção. A ordem judicial está relacionada à investigação de possíveis crimes econômicos, entre eles lesão de confiança. As autoridades também determinaram medidas contra Carlos Carvallo, que havia ocupado a presidência do Banco Central do Paraguai. Peña deverá prestar esclarecimentos às autoridades responsáveis pela investigação. A prisão domiciliar não representa condenação, e a responsabilidade criminal do ex-presidente ainda deverá ser analisada pela Justiça.
Com a saída de Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência da República para concluir o mandato, que termina em agosto de 2028. A mudança ocorreu em meio a manifestações populares e forte mobilização policial nas proximidades da residência do ex-presidente e de instituições públicas. A crise também provocou preocupação entre investidores, aposentados e correntistas que dependiam dos serviços financeiros do Ueno Bank.
O centro do escândalo é o Ueno Bank, instituição digital que teve sua administração assumida por autoridades reguladoras depois que o Banco Central identificou uma deterioração grave nos índices de solvência. Segundo informações da Associated Press, o indicador da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação paraguaia. O banco informou possuir aproximadamente 3 milhões de clientes e administrar entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos. A intervenção deixou milhares de pessoas sem acesso imediato aos depósitos, incluindo aposentados e beneficiários de fundos previdenciários.
Entre os recursos envolvidos estavam aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS), responsável pela administração de aposentadorias e fundos de saúde dos trabalhadores. Também havia dinheiro de órgãos públicos e entidades binacionais, incluindo Itaipu e Yacyretá. A interrupção das operações provocou preocupação sobre a segurança dos recursos previdenciários e a capacidade de restituição dos valores aos titulares das contas. O sistema paraguaio de garantia de depósitos prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, aproximadamente US$ 38 mil, segundo dados divulgados pela Associated Press.
A relação empresarial anterior entre Santiago Peña e o grupo controlador do banco também passou a ser alvo de investigação. Antes de assumir a Presidência, Peña havia sido acionista de empresas ligadas ao conglomerado responsável pelo Ueno Bank. O ex-presidente afirma que vendeu sua participação em março de 2025 e nega ter cometido irregularidades. Entretanto, parlamentares questionaram a relação entre o governo, a instituição financeira e a entrada de recursos públicos no banco durante o período em que Peña esteve no poder.
As acusações apresentadas durante o processo de impeachment apontam possíveis conflitos de interesse, interferência na fiscalização financeira, favorecimento de interesses empresariais e utilização irregular de recursos previdenciários. Os parlamentares também questionaram a atuação do Banco Central diante dos problemas financeiros da instituição. A investigação criminal deverá esclarecer se houve favorecimento indevido, ocultação de informações ou participação de autoridades na deterioração da situação financeira do banco.
O caso também alcançou dirigentes e executivos da instituição financeira. Antes da destituição de Peña, oito pessoas ligadas à administração do Ueno Bank já haviam sido presas durante as investigações. Entre elas está Federico Miguel Vázquez Villasanti, executivo do grupo controlador, apontado pelos investigadores como uma das figuras centrais do caso. O Ministério Público apura suspeitas de concessão de empréstimos acima dos limites legais a empresas relacionadas ao grupo empresarial, operações financeiras irregulares e possíveis mecanismos utilizados para ocultar prejuízos.
A crise ganhou novos desdobramentos com a apreensão de bens de luxo ligados a Federico Miguel Vázquez. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 7 de novembro, autoridades paraguaias apreenderam dois jatinhos, um iate e sete veículos de luxo. Os bens foram localizados em diferentes cidades, incluindo Assunção, Luque e San Juan del Paraná. Somente os sete veículos foram avaliados em aproximadamente US$ 14 milhões, equivalentes a cerca de R$ 77 milhões. As apreensões integram as medidas de investigação patrimonial relacionadas ao escândalo bancário.
O episódio representa uma das maiores crises políticas recentes do Paraguai e coloca em discussão os mecanismos de fiscalização do sistema financeiro, a proteção dos recursos públicos e a relação entre autoridades governamentais e grupos empresariais. Enquanto o novo governo enfrenta o desafio de administrar os efeitos da intervenção bancária, o Ministério Público continua reunindo provas para esclarecer as responsabilidades individuais. A situação dos milhões de clientes afetados, a recuperação dos recursos e o andamento dos processos contra o ex-presidente e os dirigentes do banco deverão permanecer entre os principais assuntos da agenda paraguaia nos próximos dias.













