Incêndios em Alter do Chão se multiplicam e deixam brigadistas no limite

Brigadistas, bombeiros e voluntários correm contra o tempo em Alter do Chão Foto: reprodução de vídeo da Brigada de Alter

Uma sequência de incêndios florestais está provocando preocupação em Alter do Chão, distrito de Santarém, no oeste do Pará. Desde 30 de outubro de 2026, brigadistas, bombeiros, voluntários e indígenas do povo Borari enfrentam diferentes focos de fogo na Área de Proteção Ambiental (APA) de Alter do Chão. A situação ganhou ainda mais gravidade com o surgimento de novas ocorrências, mesmo após o controle das primeiras grandes frentes de incêndio. O cenário levou o diretor-presidente da Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, Elder Stéfanno, a manifestar publicamente sua preocupação com a frequência das queimadas e o esgotamento das equipes.

Em vídeo publicado nas redes sociais por volta do meio-dia de 6 de novembro, Stéfanno relatou que os brigadistas haviam passado a madrugada combatendo um incêndio de grandes proporções na comunidade de Areia Branca e, pouco depois, receberam a informação de um novo foco na região da Capadócia, às margens do Lago Verde. “Nós não temos equipe disponível, eu tô exausto, os outros brigadistas estão exaustos, os guardiões estão exaustos!”, afirmou. O relato evidencia a pressão enfrentada pelas equipes, que precisam se deslocar continuamente para impedir que as chamas atinjam áreas de vegetação, residências e locais de importância ambiental.

O primeiro grande incêndio começou na tarde de 30 de outubro, nas proximidades da Ilha do Amor, e avançou em direção às margens do Lago Verde e às áreas de savana nativa. Segundo a reportagem do Conexão Planeta, o fogo chegou a formar uma linha de aproximadamente 2,5 quilômetros. No sábado (31), equipes do Corpo de Bombeiros, brigadistas comunitários e indígenas Borari receberam reforço de aeronaves do governo federal, vinculadas ao Ibama e ao ICMBio. As principais frentes foram controladas até 1º de novembro, mas o trabalho não terminou, pois permaneceram focos subterrâneos em troncos e raízes, capazes de reacender com o calor e o vento.

Na segunda-feira (2), brigadistas e agentes da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA) retornaram à área para realizar o rescaldo e a vigilância. Durante as atividades, novos pontos de calor foram identificados, exigindo a manutenção das linhas de contenção. Na quarta-feira (4), outro incêndio foi registrado nas proximidades da Escola do Campo e da Escola da Floresta, na comunidade de Caranazal, às margens da rodovia Dr. Everaldo de Sousa Martins (PA-457). A ocorrência foi controlada com apoio do Corpo de Bombeiros, segundo informou Elder Stéfanno.

Na quinta-feira (5), um novo incêndio de grandes proporções atingiu as proximidades da comunidade de Areia Branca. A brigada recebeu apoio de Egry Maia, da Associação dos Moradores e Amigos do Lago Verde (AMA Lago Verde), que ajudou a identificar a ocorrência. As equipes conseguiram conter frentes que avançavam em direção a residências e ao lago, mas ainda havia diversos pontos ativos. Na madrugada de sexta-feira (6), às 4h40, Stéfanno informou que a maior parte das frentes mais intensas havia sido controlada, embora dois pontos ainda precisassem ser repassados a novos agentes do Corpo de Bombeiros.

A situação também atingiu a região da Floresta Encantada, na comunidade de Caranazal, onde integrantes do povo Borari divulgaram imagens mostrando a proximidade das chamas com estruturas utilizadas pela comunidade. Em um dos registros, uma moradora relata que era possível ouvir o barulho intenso do fogo e observar cinzas caindo sobre o deck da área. “As cinzas estão caindo aqui no deck, já. As cinzas estão voando. O fogo está muito perto”, descreveu. As imagens reforçaram a preocupação com os danos à vegetação e com os riscos para moradores, visitantes e territórios tradicionais indígenas.

Além da sequência de ocorrências, lideranças indígenas e brigadistas levantaram suspeitas de que parte dos incêndios possa estar relacionada à ocupação irregular do solo, à grilagem e à especulação imobiliária. João Romano, instrutor de brigada conhecido como Johnny Brigadista, afirmou que foram registrados episódios de pessoas empilhando galhos e troncos e ateando fogo na região. Ele também demonstrou preocupação com a atuação das equipes em áreas de disputa fundiária. “Não param de colocar fogo e não encontram os responsáveis! Espero que, desta vez, isso seja solucionado”, declarou. Durante a operação de rescaldo, também foram encontradas estacas de possíveis loteamentos em trechos atingidos. Apesar das denúncias e dos indícios relatados, a autoria dos incêndios ainda não está oficialmente comprovada.

O problema ganhou dimensão institucional. Em 6 de novembro, a Prefeitura de Santarém informou que realizou uma reunião de trabalho com representantes da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), do Corpo de Bombeiros, da Companhia Ambiental da Polícia Militar e da Divisão Especializada de Meio Ambiente e Proteção Animal (Demapa), da Polícia Civil. O encontro, realizado no Centro Municipal de Informação e Educação Ambiental (Ciam), teve como objetivo organizar estratégias conjuntas de combate às queimadas, reforçar a fiscalização e reunir informações para identificar possíveis responsáveis. A secretária municipal de Meio Ambiente, Vânia Portela, afirmou: “Esse trabalho é fundamental para que os responsáveis por queimadas irregulares sejam identificados e respondam por suas condutas”.

O reforço federal também é fundamental diante da dimensão das ocorrências no Pará. Em boletim divulgado em 6 de novembro, com dados consolidados até o dia 5, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que 185 incêndios florestais haviam sido extintos no estado e que quatro ocorrências permaneciam em combate pelo Prevfogo, sendo duas em Mojuí dos Campos, uma em Santarém e uma em Altamira. Ao todo, 542 profissionais estavam mobilizados nas ações federais, dos quais 362 atuavam no oeste paraense. A estrutura aérea na região contava com 13 aeronaves, que já haviam realizado 357,2 horas de voo e 347 lançamentos de água, totalizando 560.160 litros.

Os números da área atingida em Alter do Chão ainda exigem cautela. A reportagem do Conexão Planeta menciona aproximadamente 456 hectares para o primeiro incêndio, atribuindo o dado ao Corpo de Bombeiros do Pará. Entretanto, outra divulgação jornalística, publicada pela Folha de S.Paulo em 1º de novembro, informou cerca de 58 hectares de vegetação nativa atingidos. Como os números divergem e não foi localizada uma consolidação oficial que esclareça essa diferença, não é possível apresentar uma extensão total definitiva para todos os incêndios registrados na região.

Enquanto as autoridades articulam novas medidas de fiscalização e investigação, moradores, indígenas e brigadistas continuam mobilizados para proteger a vegetação nativa, a fauna e as comunidades de Alter do Chão. A sequência de focos de incêndio, o desgaste das equipes e as suspeitas de queimadas intencionais colocam em evidência a necessidade de investigação rigorosa, presença permanente do poder público e responsabilização de eventuais autores. Mais do que combater as chamas, o desafio agora é impedir que novos incêndios voltem a ameaçar um dos territórios ambientais e culturais mais importantes do oeste do Pará.

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