A crise envolvendo o Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do Paraguai, provocou uma das maiores turbulências recentes no sistema bancário do país. A intervenção determinada pelo Banco Central do Paraguai (BCP), anunciada em 3 de novembro de 2026, deixou aproximadamente 2,9 milhões de clientes diante de restrições de acesso às suas contas e recursos financeiros. A medida foi adotada após a autoridade monetária identificar graves problemas nos indicadores de solvência da instituição.
Segundo comunicado oficial do Banco Central, a decisão de iniciar o procedimento de resolução foi aprovada por unanimidade pela diretoria em 2 de novembro. A instituição informou que o índice de solvência do Ueno Bank havia caído para menos de 50% do mínimo exigido, após ajustes realizados nas demonstrações financeiras durante um processo de regularização. O procedimento tem como objetivos preservar os ativos do banco, proteger os depositantes e assegurar a estabilidade do sistema financeiro paraguaio.
A dimensão da crise chama atenção porque o Ueno Bank possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes. Além dos correntistas, a instituição administrava recursos públicos estimados em aproximadamente US$ 850 milhões, segundo informações divulgadas pela Reuters. Entre os valores estavam recursos vinculados a entidades estatais e fundos relacionados à previdência. A situação também provocou preocupação entre aposentados que utilizavam o banco para receber seus benefícios.
A intervenção provocou mudanças importantes na estrutura do Banco Central. Carlos Carvallo deixou a presidência da autoridade monetária em 3 de novembro, após o presidente Santiago Peña solicitar sua renúncia. A crise também passou a ser investigada pelo Ministério Público paraguaio, que determinou a detenção de oito pessoas ligadas à instituição financeira, incluindo executivos. Entre os pontos investigados estão suspeitas de operações de crédito envolvendo empresas relacionadas ao grupo controlador do banco, o Grupo Vázquez.
A situação ganhou novos contornos políticos em 4 de novembro, quando 35 parlamentares da oposição apresentaram pedidos de impeachment contra Santiago Peña. Entre os questionamentos estão possíveis conflitos de interesse relacionados às antigas ligações empresariais do presidente com o grupo controlador do Ueno Bank. Peña havia sido acionista do Grupo Vázquez até março de 2025. Segundo a Reuters, a oposição também levantou suspeitas sobre a utilização de recursos públicos e possíveis irregularidades relacionadas à crise financeira. O movimento ainda enfrenta obstáculos políticos, pois os oposicionistas não possuem, isoladamente, os votos necessários para aprovar o afastamento presidencial.
Diante da pressão dos clientes e da repercussão nacional, o Congresso paraguaio avançou nas medidas para acelerar a devolução dos depósitos. Em 4 de novembro, o Senado aprovou por unanimidade uma alteração na legislação de garantia de depósitos, permitindo a antecipação de até 40 salários mínimos por depositante. O valor máximo corresponde a aproximadamente 121,76 milhões de guaranis, considerando o salário mínimo utilizado no cálculo. O texto foi encaminhado ao Poder Executivo após a aprovação das modificações legislativas.
O Banco Central do Paraguai também divulgou orientações para os correntistas. Conforme comunicado publicado em 4 de novembro, os beneficiários começariam a receber, a partir de 5 de novembro, mensagens eletrônicas enviadas pelo endereço oficial fgdpagos@bcp.gov.py, informando em qual instituição financeira receberiam o pagamento. Para quem possui conta em outro banco ou financeira do sistema paraguaio, o dinheiro será encaminhado à conta com maior saldo disponível. Para quem não possui relacionamento com outra instituição, será aberta uma conta de poupança em um banco ou financeira habilitada.
O cronograma divulgado pelo Banco Central estabelece que os pagamentos deverão começar em até 24 horas e que o procedimento não poderá ultrapassar cinco dias úteis. O valor antecipado poderá chegar a 40 salários mínimos, mas eventuais dívidas vencidas do cliente com o Ueno Bank serão descontadas. A autoridade monetária também esclareceu que a antecipação não elimina a cobertura integral prevista na legislação de garantia de depósitos, cujo limite permanece em até 75 salários mínimos, atualmente equivalente a 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição financeira.
A crise, entretanto, vai além das dificuldades enfrentadas pelos correntistas. A intervenção colocou sob pressão a credibilidade do sistema financeiro paraguaio e provocou questionamentos sobre a fiscalização das instituições bancárias, a concessão de empréstimos e a relação entre recursos públicos e empresas privadas. Enquanto as autoridades trabalham para organizar a devolução dos valores e esclarecer as responsabilidades, milhares de clientes aguardam a normalização de sua situação financeira. O caso também mantém o governo de Santiago Peña sob forte pressão política, com investigações e questionamentos parlamentares que podem ampliar os desdobramentos da crise nos próximos dias.













