El Niño pode ser um dos mais fortes da história e ameaçar o clima até 2027

O fenômeno El Niño está se intensificando rapidamente e poderá figurar entre os episódios mais fortes já registrados desde 1950. O alerta foi reforçado por órgãos oficiais de meteorologia e monitoramento climático, que apontam a continuidade do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e a possibilidade de impactos sobre o clima brasileiro até o primeiro trimestre de 2027. As projeções indicam maior risco de chuvas excessivas em algumas regiões, estiagens prolongadas em outras e temperaturas acima da média em grande parte do território nacional.

Um dos dados mais recentes foi divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) em 3 de novembro de 2026. Segundo o órgão, a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 apresentou anomalia positiva de 2,47 °C em outubro, o maior valor já registrado para esse mês na série histórica. Na região Niño 3, que possui influência importante sobre as condições climáticas da América do Sul, a anomalia mensal chegou a 3,56 °C. Na última semana de outubro, o aquecimento semanal alcançou 2,5 °C na região Niño 3.4, confirmando a intensidade excepcional do episódio.

O INMET também informou que, na região Niño 1+2, próxima à costa do Peru e do Equador, a anomalia semanal chegou a 4,6 °C na última semana de outubro, igualando o maior valor da série iniciada em 1981. Na região Niño 3, o aquecimento semanal atingiu 3,7 °C, estabelecendo um novo recorde. Esses indicadores demonstram a velocidade do aquecimento do Pacífico e reforçam a possibilidade de que o atual El Niño esteja entre os eventos mais intensos já observados.

De acordo com o quinto boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 29 de outubro, o fenômeno deverá permanecer ativo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, com intensidade forte a muito forte. Para o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027, as projeções indicam a possibilidade de um episódio muito forte, com anomalias superiores a 2,5 °C em relação à média histórica. O documento foi elaborado conjuntamente pelo INMET, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam.

No Brasil, os efeitos deverão apresentar diferenças importantes entre as regiões. A previsão para novembro, dezembro e janeiro aponta maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste. Em contrapartida, grande parte da Região Norte e áreas do Nordeste e do Centro-Oeste apresentam tendência de precipitações abaixo da média. As temperaturas também deverão permanecer acima dos padrões históricos em quase todo o país, especialmente no Norte. No Rio Grande do Sul, a previsão indica temperaturas abaixo da média.

Os efeitos da estiagem já aparecem nos indicadores de monitoramento. Dados parciais de outubro do Índice Integrado de Seca do Cemaden classificaram 68 municípios brasileiros em situação de seca extrema e outros 232 em seca severa. Em agosto, eram apenas quatro municípios na categoria extrema e 153 na severa. A intensificação está concentrada principalmente no Nordeste, com destaque para Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco. Na Região Norte, Roraima e Amazonas também apresentam agravamento das condições de seca.

O cenário também preocupa em relação aos incêndios florestais. Segundo o Cemaden, a combinação de temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média aumenta o potencial de propagação do fogo, especialmente na Amazônia Legal. Em outubro, até o dia 23, foram registrados 11.662 eventos de fogo, depois de setembro ter contabilizado 12.659 ocorrências. Para o trimestre de novembro a janeiro, o monitoramento apontou 307 municípios em alerta alto e outros 464 em situação de alerta para risco de fogo, principalmente na Região Norte.

No setor agropecuário, a irregularidade das chuvas poderá dificultar o plantio e o desenvolvimento de lavouras que dependem da precipitação natural, além de reduzir a disponibilidade de água e pastagens para os rebanhos. O plantio no MATOPIBA, região que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, também poderá sofrer atrasos em decorrência da falta de umidade no solo. No Sul, por outro lado, o excesso de chuva e a umidade elevada podem prejudicar operações agrícolas, especialmente a colheita do trigo e a semeadura da soja no Rio Grande do Sul.

A situação dos recursos hídricos também exige atenção. O boletim do Cemaden apontou que, em 23 de outubro, os reservatórios do Sistema Interligado Nacional estavam com volume equivalente a 65,9% da capacidade. No Nordeste, o índice era de 45,4%, enquanto 103 açudes monitorados pela ANA estavam abaixo de 20% do volume. Na Amazônia, os níveis dos rios Branco e Negro também estavam entre os pontos de preocupação, especialmente em Roraima, onde a previsão de pouca chuva pode agravar as dificuldades de navegação e abastecimento.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da Organização das Nações Unidas, também alertou em setembro para a possibilidade de um El Niño muito forte, com impactos sobre os padrões de chuva e temperatura que podem continuar ao longo de 2027. A entidade ressaltou que o fenômeno aumenta os riscos de enchentes, secas e ondas de calor, mas que a intensidade dos efeitos varia conforme a região e a interação com outras condições oceânicas e atmosféricas.

Diante desse cenário, os órgãos brasileiros recomendam o acompanhamento permanente das previsões meteorológicas, dos níveis dos rios e dos alertas da Defesa Civil. Para Mato Grosso e demais áreas do Centro-Oeste, a atenção deve se concentrar na distribuição irregular das chuvas, nas condições de umidade do solo e no risco de incêndios florestais. Embora as projeções indiquem tendências para os próximos meses, os especialistas destacam que novas atualizações serão necessárias para determinar a intensidade e a localização dos impactos. O El Niño poderá continuar influenciando o clima brasileiro até 2027, tornando o monitoramento e a prevenção fundamentais para reduzir os riscos à população, à agricultura e ao meio ambiente.

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