A América Latina precisa ampliar as medidas de prevenção e adaptação diante do fortalecimento do El Niño, que já altera as perspectivas climáticas para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. Especialistas alertam que países como Brasil, Argentina, Colômbia e Paraguai ainda não estão suficientemente preparados para enfrentar possíveis mudanças no regime de chuvas, períodos de estiagem e aumento das temperaturas, com reflexos diretos sobre a produção agropecuária.
O alerta ganhou força nos últimos dias com a atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Em 3 de setembro, a entidade informou que o fenômeno deve continuar se intensificando e poderá atingir uma intensidade excepcional. A previsão indica praticamente 100% de probabilidade de permanência do El Niño até fevereiro de 2027, elevando o risco de eventos extremos em diferentes partes da América Latina.
Durante um evento sobre economia verde realizado em São Paulo em 4 de setembro, o coordenador técnico do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) no Brasil, Heithel Silva, afirmou que a região ainda não tem preparação suficiente para lidar com os impactos do fenômeno. Para ele, é necessário ampliar a integração entre os países e estabelecer políticas que aproximem produção agrícola, adaptação climática e geração de valor no campo.
Os efeitos de eventos climáticos extremos já provocaram prejuízos importantes na região. Segundo dados da OMM citados na reportagem, partes da Amazônia e do Pantanal registraram, em 2024, volumes de chuva entre 30% e 40% abaixo da média. No Rio Grande do Sul, as enchentes provocaram prejuízos estimados em R$ 8,5 bilhões para o setor agropecuário, afetando lavouras, criação de animais, distribuição e renda dos produtores.
A preocupação é especialmente grande entre pequenos produtores, que possuem menor capacidade financeira para absorver perdas provocadas por secas prolongadas ou chuvas excessivas. Entre as estratégias apontadas pelos especialistas estão a diversificação de culturas, sistemas agroflorestais e práticas de conservação do solo e da água. Experiências desenvolvidas em Sergipe, Bolívia e Uruguai já utilizam corredores agroecológicos como alternativa de adaptação.
A cooperação regional também aparece como uma das principais respostas. O Programa Cooperativo para o Desenvolvimento Agroalimentar e Agroindustrial do Cone Sul (Procisur), que reúne instituições de pesquisa de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, trabalha com mudanças climáticas, sustentabilidade e segurança alimentar. A avaliação dos especialistas é que experiências desse tipo precisam ser transformadas em políticas permanentes, acompanhadas de assistência técnica e recursos.
A preservação da Amazônia também foi apontada como estratégica para reduzir a vulnerabilidade climática. A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira defendeu maior diálogo climático entre os países latino-americanos e parceiros africanos, enquanto Tiago Reis, especialista em conservação territorial do WWF-Brasil, destacou a vegetação nativa como uma espécie de proteção para os sistemas produtivos.
Com a previsão de um El Niño excepcionalmente forte e prolongado, o desafio para os governos passa a ser antecipar os impactos em vez de agir somente depois dos prejuízos. O cenário coloca agricultura, abastecimento de água, energia, infraestrutura e segurança alimentar no centro das discussões sobre adaptação climática para os próximos meses. No Brasil, o CPTEC/INPE e o INMET mantêm o monitoramento do fenômeno e de seus possíveis efeitos sobre o território nacional.














