O fim ou o enfraquecimento da Moratória da Soja pode gerar um custo de US$ 8,2 bilhões para a economia brasileira até 2032, segundo estimativa do WWF-Brasil baseada em estudo publicado na revista científica Science. O cálculo considera perdas associadas aos serviços ambientais prestados pela floresta, como produção e regulação de água, influência sobre as chuvas, biodiversidade e efeitos sobre atividades econômicas. A estimativa não representa uma perda já registrada, mas um possível impacto caso o acordo deixe de funcionar como mecanismo de proteção contra o desmatamento.
O estudo aponta que o encerramento da moratória poderia provocar o desmatamento adicional de aproximadamente 1,4 milhão de hectares na Amazônia ao longo dos próximos dez anos. Esse volume representaria aumento de 17% nas taxas históricas analisadas e poderia resultar em cerca de 745 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões, quantidade próxima às emissões anuais do Canadá.
Criada em 2006, a Moratória da Soja estabelece que empresas signatárias não devem comprar soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois de julho de 2008. Segundo o estudo divulgado pelo WWF, nos primeiros dez anos de funcionamento o acordo contribuiu para reduzir em aproximadamente 35% o desmatamento nas regiões sob risco de expansão da soja e evitou a perda de cerca de 1,8 milhão de hectares de floresta. Ao mesmo tempo, a área cultivada com soja na Amazônia mais que triplicou, principalmente sobre terras que já haviam sido abertas.
O cenário jurídico mudou em agosto. Em 12 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade da Moratória da Soja e determinou o encerramento de processos judiciais e administrativos que questionavam a legalidade do acordo. A Corte, porém, também manteve válidas leis de Mato Grosso e Rondônia que restringem benefícios fiscais a empresas que participam de compromissos ambientais mais rigorosos do que as exigências previstas na legislação.
A decisão do STF é considerada central para o futuro do acordo porque as restrições estaduais contribuíram para o abandono da moratória pelas principais empresas de comercialização de soja no início de 2026. Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, a legislação estadual passou a afetar diretamente empresas que mantêm compromissos ambientais além do mínimo estabelecido pelo Código Florestal. O Supremo, contudo, considerou que os estados podem estabelecer condições para a concessão de benefícios fiscais.
Para Tiago Reis, especialista em conservação territorial do WWF-Brasil, a avaliação econômica precisa considerar que a floresta também produz serviços essenciais à economia. “Floresta em pé é como uma fazenda”, afirmou, destacando que a Amazônia contribui para a circulação de umidade e para as chuvas que abastecem áreas agrícolas e sistemas de geração de energia no Brasil e em outras regiões da América do Sul.
O estudo também indica que ainda existem cerca de 1,7 milhão de hectares já desmatados e considerados aptos para o cultivo de soja na Amazônia, o que permitiria ampliar a produção sem necessariamente abrir novas áreas de floresta. Os pesquisadores identificaram ainda 9,1 milhões de hectares de florestas privadas com alta aptidão para a soja e 28,7 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas que poderiam ficar mais expostas à especulação fundiária diante do enfraquecimento do acordo.














