Estudo questiona modelo tradicional sobre como o cérebro toma decisões

Uma nova proposta na área da neurociência está questionando a forma tradicional de explicar como o cérebro toma decisões. O estudo “Sensorimotor Mechanisms of Decisions and Actions”, publicado em 1º de junho de 2026 no Journal of Cognitive Neuroscience, é assinado pelo neurocientista Tom James, professor do Departamento de Ciências Psicológicas e do Cérebro da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. A pesquisa sugere que a sensação de escolher e a realização de uma ação podem fazer parte de um mesmo processo, em vez de ocorrerem em etapas separadas.

A explicação tradicional costuma apresentar o funcionamento como uma sequência: primeiro a pessoa percebe uma informação, depois pensa e toma uma decisão e, por fim, realiza uma ação. Esse entendimento é chamado por James de “modelo sanduíche”. Na proposta apresentada pelo pesquisador, entretanto, percepção e ação estariam ligadas em um processo contínuo, no qual diferentes atividades do cérebro, do corpo e do ambiente interagem simultaneamente.

James também questiona a existência de uma espécie de “controlador central” responsável por tomar decisões dentro do cérebro. Para ele, embora seja útil dizer que uma pessoa tomou uma decisão, essa descrição não necessariamente explica os mecanismos físicos que produziram o comportamento. O pesquisador compara a situação à expressão “a universidade decidiu”: a frase descreve uma ação coletiva, mas a decisão efetivamente resulta da interação entre pessoas, departamentos e diferentes processos.

A proposta também recorre a um exemplo envolvendo robôs para discutir como comportamentos que parecem intencionais podem surgir da interação entre mecanismos sensoriais e motores relativamente simples. A ideia é que não seja necessário existir um componente separado responsável por “decidir” para que um sistema produza comportamentos organizados. Nesse modelo, o que chamamos de tomada de decisão poderia emergir da interação contínua entre percepção, movimento, organismo e ambiente.

Apesar do impacto da hipótese, o estudo possui uma limitação importante. Não foram realizados experimentos com participantes, exames de imagem cerebral ou testes que comprovem diretamente a nova interpretação. O artigo é classificado como comentário ou proposta teórica, o que significa que suas ideias ainda precisam ser confrontadas com evidências experimentais. O próprio James aponta a necessidade de desenvolver novos métodos para investigar processos menos lineares e mais simultâneos.

A proposta, portanto, não demonstra que seres humanos não tomam decisões nem que a sensação de escolha seja simplesmente uma ilusão. O argumento é mais específico: “decisão” pode ser uma descrição útil do comportamento em um nível psicológico, mas não necessariamente corresponde a uma etapa física isolada ou a um centro de comando dentro do cérebro. A distinção é importante para evitar que uma hipótese teórica seja interpretada como uma conclusão definitiva sobre o funcionamento cerebral.

Para o pesquisador, estudos futuros deveriam observar a tomada de decisões em situações mais próximas da vida cotidiana, além das tarefas altamente controladas utilizadas tradicionalmente em laboratórios. A expectativa é que uma abordagem baseada na cognição incorporada e na psicologia ecológica permita investigar de maneira mais detalhada como cérebro, corpo e ambiente produzem comportamentos que reconhecemos como escolhas.

A discussão amplia uma das questões centrais da neurociência: como processos físicos do organismo dão origem à experiência subjetiva de escolher, desejar e agir. Por enquanto, a proposta de Tom James representa uma nova interpretação teórica sobre esse processo, e não uma substituição comprovada das explicações existentes. A confirmação ou rejeição da hipótese dependerá de pesquisas experimentais capazes de testar suas previsões.

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