Uma fazenda produtora de algodão em Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, foi alvo de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) após auditores identificarem 35 trabalhadores em condições análogas à escravidão. A propriedade, chamada Fazenda Reata, pertence ao produtor rural Oscar Luiz Cervi, que foi autuado em junho de 2026. A investigação aponta que a produção da fazenda tinha relação comercial com a multinacional Bunge, que também controla a exportadora de algodão Viterra, empresa ligada a cadeias de fornecimento que atendem grandes marcas internacionais do setor de moda.
Segundo a fiscalização trabalhista, os trabalhadores atuavam no controle manual de plantas daninhas em uma lavoura de algodão e estavam alojados em estruturas consideradas inadequadas pelos auditores. O relatório aponta que os funcionários eram mantidos em contêineres superlotados, com cerca de 2,40 metros de largura por 6 metros de comprimento, onde nove pessoas permaneciam alojadas, além de relatos sobre vigilância permanente no local.
A reportagem da Repórter Brasil informou que Oscar Luiz Cervi declarou, em material institucional divulgado pela própria Bunge em março de 2026, ser fornecedor da companhia há 42 anos e que passaria a comercializar toda a sua produção de algodão por meio da Viterra. A exportadora, segundo dados analisados pela reportagem, possui relações comerciais com indústrias têxteis internacionais ligadas a marcas como GAP, Lacoste e Levi Strauss & Co., dona da Levi’s.
Apesar da denúncia envolvendo a Fazenda Reata, a propriedade possuía certificações relacionadas a boas práticas socioambientais. A fazenda era vinculada a padrões como a Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS) e já havia participado de programas de sustentabilidade ligados ao setor do algodão. A Bunge informou que solicitou esclarecimentos ao produtor e afirmou acompanhar o caso, reforçando compromisso com direitos humanos, ética e sustentabilidade.
As marcas citadas na investigação também foram procuradas para esclarecer possíveis vínculos com o algodão produzido na propriedade. Adidas, Lacoste e Levi Strauss & Co. afirmaram que possuem políticas contra trabalho forçado e mecanismos de análise de fornecedores, mas disseram não ter identificado, até aquele momento, ligação direta entre o algodão da Fazenda Reata e seus produtos. Especialistas ouvidos pela reportagem destacaram que casos como esse aumentam o debate sobre a responsabilidade das grandes empresas em fiscalizar toda a cadeia produtiva, incluindo fornecedores indiretos.












