A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em 17 de maio de 2026, o surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda como uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional (ESPII/PHEIC). O alerta representa o segundo nível mais alto de emergência sanitária da entidade, embora ainda não atenda aos critérios para uma pandemia. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou estar profundamente preocupado com a “escala e velocidade” da disseminação do vírus, especialmente diante do avanço em áreas urbanas e regiões marcadas por conflitos armados.
O epicentro da crise está na província de Ituri, no nordeste da RDC, onde o Ministério da Saúde congolês contabiliza até 131 mortes suspeitas e cerca de 513 casos suspeitos até 19 de maio de 2026. Dados divulgados anteriormente pela OMS, em 16 de maio, apontavam 8 casos confirmados laboratorialmente, 246 suspeitas e aproximadamente 80 mortes. O vírus já alcançou múltiplas zonas de saúde, incluindo Bunia, Rwampara, Mongbwalu, Nyakunde, Butembo e Goma. Em Uganda, autoridades confirmaram dois casos e uma morte ligados à transmissão transfronteiriça.
Especialistas acreditam que o vírus da espécie Bundibugyo possa estar circulando silenciosamente há semanas antes da detecção oficial. A cepa apresenta taxa de letalidade estimada entre 25% e 50%, com mortalidade próxima de 40% no atual contexto. Diferentemente da cepa Zaire, responsável por outros grandes surtos, o vírus Bundibugyo ainda não possui vacinas ou tratamentos específicos aprovados. A OMS discute alternativas emergenciais, incluindo o uso compassivo da vacina Ervebo, que apresentou alguma proteção cruzada em estudos realizados com animais.
O surto foi oficialmente comunicado à OMS em torno de 5 de maio, com confirmação laboratorial realizada em 15 de maio pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica da RDC (INRB). Este é o 17º surto de Ebola registrado no país africano. A situação preocupa autoridades sanitárias devido à presença de casos em áreas urbanas densamente povoadas e regiões de difícil acesso, onde conflitos armados dificultam ações de rastreamento, isolamento e atendimento médico. A transmissão ocorre por contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas ou cadáveres, e funerais tradicionais continuam sendo apontados como fator de risco importante.
Em resposta ao avanço da doença, governos africanos e organismos internacionais ampliaram medidas de vigilância sanitária. O Africa CDC e países vizinhos, como Ruanda e Nigéria, intensificaram o monitoramento de fronteiras e o rastreamento de contatos. Nos Estados Unidos, o CDC emitiu alerta de viagem Nível 4 para a RDC, além de impor restrições de entrada para viajantes vindos das áreas afetadas. Apesar disso, o órgão considera baixo o risco de transmissão em território norte-americano. A OMS estima que serão necessários cerca de US$ 30 milhões para conter o surto, mas reconhece que os recursos disponíveis ainda são insuficientes.
Entre os casos internacionais monitorados está o do médico missionário americano Dr. Peter Stafford, infectado após atender pacientes no Hospital Nyankunde, em Bunia, na província de Ituri. Ele será transferido para tratamento na Alemanha, em uma base militar dos Estados Unidos. Sua esposa, Dra. Rebekah Stafford, e outro médico exposto seguem em quarentena sem apresentar sintomas. Autoridades informaram ainda que pelo menos seis cidadãos norte-americanos tiveram exposição considerada de risco.
O atual cenário reacende lembranças do maior surto de Ebola da história, registrado entre 2014 e 2016 na África Ocidental, quando mais de 28,6 mil pessoas foram infectadas e 11.325 morreram. Na própria RDC, surtos anteriores, incluindo o de 2018 a 2020, foram controlados com vacinas e tratamentos desenvolvidos para outras cepas do vírus. Desta vez, porém, a combinação entre uma variante rara e a instabilidade regional amplia os desafios para as equipes de saúde.












