Crise leva argentinos a consumir carne de burro na Patagônia

Enquanto o presidente Javier Milei celebra números de inflação “controlada”, a população argentina é obrigada a buscar alternativas cada vez mais desesperadoras para colocar proteína no prato. A última: carne de burro.

De acordo com reportagem do jornal Página/12, publicada nesta semana, consumidores de Trelew, na província de Chubut (Patagônia), esgotaram em apenas um dia e meio o estoque de carne de burro vendida a 7.500 pesos por quilo em uma carnicería local. O preço é menos da metade do que se paga hoje pela carne bovina, que ultrapassou os 25 mil pesos por quilo em vários cortes.

O açougueiro Gonzalo Moreira, dono do estabelecimento, confirmou à imprensa local que a demanda explodiu depois que a carne de vaca disparou mais de 10% em um único mês. “A gente vê que o pessoal está procurando algo mais barato”, disse ele.

“Não é crise, é opção produtiva”, diz o produtor

Quem está por trás da oferta é o produtor rural Julio Cittadini, responsável pelo projeto Burros Patagones. Em entrevista ao Infobae, Cittadini tentou suavizar o tom: afirmou que a iniciativa não nasceu “por causa da crise”, mas como uma alternativa produtiva para a Patagônia, região que enfrenta queda de rentabilidade na criação de ovinos, seca e solo inadequado para bovinos.

Mesmo assim, o timing não poderia ser mais simbólico. A carne de burro chega ao mercado exatamente no momento em que a política econômica de Milei, com ajuste fiscal duro, desvalorização do peso e liberação de preços, provoca forte alta nos alimentos básicos.

Contexto de uma crise que não para

Os números oficiais do Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos) são implacáveis: Inflação de 3,4% apenas em março de 2026; Inflação acumulada em 12 meses: 32,6%; Preço da carne bovina subiu mais de 10% em um mês;

Consumo de carne bovina caiu cerca de 20% nos últimos meses

Ou seja: enquanto Milei posa de “libertador” nas redes sociais, famílias argentinas comuns estão sendo empurradas para cortes de carne que, até pouco tempo atrás, eram impensáveis culturalmente num país que se orgulha de ser o rei do assado.

A venda de carne de burro é legal na Argentina, mas ainda é uma experiência piloto. Não existem frigoríficos especializados em larga escala e o produto segue normas sanitárias do Ministério de Produção de Chubut. Mesmo assim, a simples existência da oferta já gerou forte debate na sociedade argentina: muitos veem como mais um sinal de empobrecimento forçado.

O que era para ser “choque de confiança” virou choque de realidade: alta de preços, queda no poder de compra e, agora, a busca por carne de burro como forma de sobreviver ao modelo econômico de Milei.

A carne de burro pode até ser uma “opção produtiva” para o produtor de Chubut. Para a população, é mais um capítulo triste da crise que o governo tenta esconder com discursos de superação.

Fonte principal: Página/12 (16/04/2026), com informações complementares de Infobae, TN e El Economista.

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