Produtores brasileiros apostam no robusta de alta qualidade diante de preços recordes e desafios climáticos

Produtores de café robusta no Brasil vêm intensificando esforços para elevar a qualidade do grão, impulsionados pelo avanço dos preços internacionais, pelo consumo global em alta e pelos impactos das mudanças climáticas sobre o arábica. A tendência já chegou às cafeterias sofisticadas, como na rua Oscar Freire, em São Paulo, onde espressos premium feitos com 100% robusta, antes visto como café inferior, ganham destaque por textura cremosa e notas achocolatadas.

Clima pressiona arábica e abre caminho ao robusta
Estudos indicam que até 2050 grande parte das áreas brasileiras ideais para o cultivo de arábica pode se tornar inviável devido ao calor e à seca. Esse cenário tem estimulado produtores a investir em técnicas avançadas de colheita e secagem de robusta (conilon), elevando sua qualidade a padrões antes restritos ao arábica.

A Specialty Coffee Association (SCA) revisou sua metodologia de avaliação, permitindo que cafés especiais sejam reconhecidos independentemente da espécie do grão. A entidade também atualizará seu léxico de sabores em 2026 para incluir características do robusta premium, como especiarias aromáticas, refletindo uma demanda crescente, especialmente no Sudeste Asiático e em cafeterias da Europa e dos EUA.

Transformação no Espírito Santo, polo do robusta
O Espírito Santo, principal produtor de conilon no país, lidera a transformação. O Estado projeta saltar de 10 mil para 1,5 milhão de sacas de robusta especial por ano até 2032. Cooperativas como a Cooabriel vêm treinando agricultores no uso de secadores modernos e seleção refinada de grãos, substituindo práticas antigas que comprometiam o sabor.

Pesquisadores do Incaper e do Ifes confirmam a expansão do número de produtores buscando certificações de café especial. A demanda crescente também tem atraído produtores tradicionais de arábica para o cultivo de robusta, movimento descrito como de “mão única” pelas autoridades estaduais.

A Cooabriel ampliará a produção de mudas de robusta de 2 milhões para 10 milhões por ano.

Preços em disparada e mudança de perfil de consumo
Com a qualidade em alta, o robusta brasileiro alcançou preços superiores a US$ 295 por saca até outubro, mais que o dobro do registrado em 2021. O movimento permite que torrefações aumentem o percentual de robusta em blends de espresso, reduzindo custos frente ao arábica, mais caro e mais afetado pelo clima.

Especialistas observam que o robusta especial deixou de tentar concorrer com o arábica especial e passou a buscar reconhecimento próprio. No Brasil, baristas afirmam que o perfil sensorial mais encorpado e amargo agrada ao paladar local, favorecendo a aceitação da variedade canéfora nas cafeterias de alta gastronomia.

Tendência consolidada
Com clima adverso, consumo global aquecido, preços elevados e avanços técnicos na pós-colheita, o robusta brasileiro se reposiciona no mercado: de grão considerado inferior a protagonista em blends premium e cafés especiais. Produtores, cooperativas e o setor de pesquisa veem a cultura como um caminho de expansão sustentável e de alto valor agregado para os próximos anos.

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