PF indicia 15 por fraude bilionária envolvendo Banco Master e BRB

A Polícia Federal (PF) indiciou, na quarta-feira (28 de outubro de 2026), o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e outras 13 pessoas por suspeitas de envolvimento em um esquema de fraudes financeiras nas negociações de carteiras de crédito entre as duas instituições. O relatório, com mais de 700 páginas, reúne as conclusões da primeira etapa da Operação Compliance Zero e foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com a investigação, Vorcaro ocupava a posição central na estrutura investigada, com participação nas decisões relacionadas à produção, aquisição e transferência de carteiras de crédito utilizadas para movimentar recursos. A PF também atribui a Paulo Henrique Costa um papel estratégico nas articulações com o banco público. O ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, aparece entre os investigados apontados como participantes da estrutura financeira das operações.

Entre os demais indiciados estão Angelo Antônio Ribeiro da Silva, Luiz Antonio Bull, Alberto Félix de Oliveira Neto, Allan da Silva Machado, Henrique Souza e Silva Peretto, André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Daniel Lopes Monteiro. Também integram a relação Dario Oswaldo Garcia Junior, Luana de Andrade Ribeiro, Cristiane Maria Lima Bukowitz, Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior. O grupo reúne antigos executivos das duas instituições, integrantes da estrutura operacional e empresarial investigada e um advogado.

Um dos principais pontos da apuração envolve a utilização de carteiras de crédito supostamente inexistentes ou sem comprovação adequada de lastro, algumas vinculadas à empresa Tirreno, apontada pelos investigadores como uma estrutura empresarial utilizada para viabilizar as operações. Segundo a Polícia Federal, o prejuízo já formalizado e reconhecido pelo BRB chega a aproximadamente R$ 2,7 bilhões. A investigação também examina operações bilionárias realizadas entre as instituições e possíveis irregularidades nos procedimentos de aprovação e transferência dos ativos.

As apurações indicam que os problemas nas carteiras de crédito já eram identificados internamente no BRB em 2024. Conforme reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 28 de outubro, um alerta recebido em 5 de agosto daquele ano apontava que aproximadamente 90% de uma carteira apresentada pelo Banco Master continha falhas ou não atendia aos critérios exigidos pelo banco público. Mesmo diante de questionamentos técnicos posteriores, novas operações continuaram sendo realizadas, segundo os elementos reunidos pela PF.

A investigação também aponta suspeitas de gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O relatório foi encaminhado à análise do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. A Polícia Federal solicitou a prorrogação das investigações por mais 60 dias, prazo destinado à conclusão de exames periciais pendentes e à elaboração de um relatório complementar. A Procuradoria-Geral da República (PGR) deverá avaliar os elementos reunidos e decidir sobre eventual apresentação de denúncia contra os investigados.

Outro desdobramento importante foi a divulgação, pela Agência Brasil, do depoimento prestado por Daniel Vorcaro à Polícia Federal em 15 de outubro. Na ocasião, antes da conclusão dos indiciamentos, o ex-banqueiro negou ter cometido fraudes e defendeu a realização de uma perícia independente para avaliar as operações envolvendo o BRB e a empresa Tirreno. Vorcaro pediu o arquivamento da investigação e também solicitou que pudesse responder ao caso em liberdade. Durante a oitiva, afirmou que teria atuado de boa-fé para resolver problemas relacionados à substituição de ativos.

Após a divulgação do indiciamento, a defesa de Vorcaro voltou a contestar as conclusões da Polícia Federal. Os advogados afirmaram que as operações envolvendo a Tirreno não provocaram prejuízo ao BRB, sustentando que as carteiras questionadas foram substituídas por outros ativos. A defesa também classificou o indiciamento como precipitado e argumentou que ainda existem perícias e diligências pendentes. A defesa de Paulo Henrique Costa, por sua vez, contestou as suspeitas e afirmou que o ex-presidente do BRB não tinha conhecimento das supostas fraudes.

O caso representa um dos mais relevantes desdobramentos da Operação Compliance Zero, iniciada em novembro de 2025, e mantém sob investigação as relações financeiras e administrativas entre o Banco Master e o BRB. Apesar do indiciamento dos 15 investigados, não há condenação criminal decorrente dessa etapa. O andamento do processo dependerá da análise das autoridades competentes, da eventual apresentação de denúncia pelo Ministério Público e das decisões posteriores do Poder Judiciário.

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