A Polícia Federal (PF) investiga denúncias de racismo, intimidações e ameaças contra comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro de 2026. Entre os casos relatados está uma ameaça de envenenamento da água consumida por moradores da Aldeia Sassoró, em Tacuru, no sudoeste do estado. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) encaminhou o caso às autoridades federais após receber informações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).
A denúncia ganhou repercussão após a circulação de áudios atribuídos a dois homens que demonstrariam insatisfação com a comunidade indígena. Nas gravações, um dos interlocutores sugere colocar veneno na água para matar os moradores. O material teria circulado em grupos de WhatsApp e contém expressões ofensivas e discriminatórias contra os povos indígenas. A Polícia Federal deverá verificar a autenticidade dos áudios, identificar os envolvidos e esclarecer as circunstâncias em que as declarações foram feitas.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, informou que tomou conhecimento do caso em 26 de outubro e acionou a Polícia Federal no mesmo dia. Segundo ele, o governo federal também está reunindo informações sobre outras denúncias de violência contra indígenas, quilombolas e povos de terreiro. Os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial organizaram uma força-tarefa para acompanhar as ocorrências e avaliar as medidas necessárias.
O documento encaminhado pelo ministério à PF aponta que as pessoas mencionadas nas gravações seriam supostamente ligadas à administração municipal de Tacuru e a serviços prestados na aldeia, incluindo o abastecimento de água por caminhões-pipa e a retirada de resíduos de unidades públicas. A participação dos envolvidos, entretanto, ainda depende de apuração. O próprio ministério ressaltou que não há comprovação de contaminação da água e solicitou que sejam avaliadas medidas preventivas para proteger os moradores e garantir a segurança do abastecimento.
O cacique Ivan Montiel, liderança da Aldeia Sassoró e vereador de Tacuru, condenou as declarações atribuídas aos interlocutores e afirmou que pretende buscar a responsabilização dos envolvidos nas esferas criminal e cível. Em manifestação nas redes sociais, ele destacou que os povos indígenas têm o mesmo direito que os demais cidadãos de escolher seus representantes políticos sem sofrer ameaças ou discriminação. A Aty Guasu, Grande Assembleia dos povos Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul, também divulgou uma manifestação de repúdio às ameaças relatadas.
Após a repercussão, o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti, publicou um vídeo gravado na Aldeia Sassoró, acompanhado de uma moradora da comunidade, no qual pediu desculpas pelas declarações registradas. Ao comentar o áudio, o prefeito afirmou: “É um mal-entendido, se expressaram mal ontem na hora de euforia, né, por conta de talvez um pouco de álcool”. Na gravação, ele também pediu que os moradores perdoassem as pessoas que teriam feito os comentários. As declarações do prefeito não substituem a investigação sobre a autenticidade do material e a eventual responsabilidade dos envolvidos.
As denúncias apresentadas pela APIB não se restringem a Tacuru. A entidade relatou outros episódios de violência contra indígenas em Mato Grosso do Sul, incluindo mortes em Naviraí, atropelamentos em Coronel Sapucaia, ameaças de morte e manifestações racistas. Também foram mencionadas suspeitas de envenenamento da água em comunidades de Nioaque. A organização encaminhou ofício e representação criminal ao Ministério Público Federal (MPF), à Polícia Federal e a órgãos do governo federal, solicitando investigação dos casos, proteção às comunidades ameaçadas e apuração de possíveis omissões das forças policiais.
Um dos episódios citados ocorreu na madrugada de sábado, 24 de outubro, quando um indígena morreu após ser atropelado na rodovia MS-289, entre Coronel Sapucaia e Amambai. O nome da vítima não foi divulgado nas informações consultadas, e as circunstâncias do acidente ainda não estavam esclarecidas. Até a publicação das reportagens consultadas, não havia confirmação oficial de que essa morte estivesse relacionada à violência política registrada após as eleições.
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS), em manifestação divulgada à imprensa, contestou a afirmação de que haveria um genocídio de povos indígenas no estado e declarou que as forças de segurança atuam quando acionadas para preservar a ordem pública, prevenir conflitos e garantir a segurança da população. A Polícia Federal deverá apurar as denúncias específicas e os elementos apresentados pelas organizações indígenas.
Diante da gravidade dos relatos, a APIB e as lideranças indígenas cobram providências para garantir a integridade das comunidades e responsabilizar eventuais autores de crimes. As investigações deverão esclarecer as ameaças registradas, a origem das gravações e a possível relação entre os episódios denunciados. Até que os fatos sejam confirmados, as acusações devem ser tratadas como denúncias em apuração, sem presumir a responsabilidade criminal dos citados.















