Bets deixam rastro de dívidas e problemas de saúde no Brasil

As apostas on-line passaram a representar uma preocupação financeira e de saúde pública no Brasil diante do aumento do número de pessoas que utilizam as plataformas. Dados reunidos em reportagem da Agência Brasil apontam que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas durante 2025. No mesmo período, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões por meio de transações via Pix.

O impacto financeiro atingiu milhões de brasileiros. Segundo levantamento citado na reportagem, 39,5 milhões de pessoas utilizaram serviços de apostas no último ano. Entre os entrevistados, 19% afirmaram ter comprometido parte da renda com os jogos, enquanto 17% disseram ter deixado de pagar contas básicas para apostar. Outro estudo, da FIA Business School em parceria com o Ibevar, apontou relação entre o crescimento das apostas e o endividamento das famílias.

Os efeitos também passaram a ser acompanhados pela área da saúde. Em julho, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos provocados pelas apostas on-line, com orientações sobre sinais de uso problemático e informações sobre atendimento disponível no Sistema Único de Saúde. Pessoas que apresentam problemas relacionados às apostas podem procurar unidades básicas de saúde e os Centros de Atenção Psicossocial, além de familiares que também necessitem de orientação.

A preocupação envolve ainda crianças e adolescentes. Dados apresentados na reportagem indicam que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio entrevistados disseram ter feito apostas on-line no último ano. Entre estudantes de 11 anos, 9,5% afirmaram já ter apostado. Especialistas destacam que adolescentes podem apresentar maior vulnerabilidade ao comportamento de risco em razão do processo de desenvolvimento das áreas cerebrais relacionadas ao controle de impulsos e à avaliação de consequências.

O governo federal também passou a buscar na Justiça a responsabilização das empresas pelo impacto das apostas. Em 28 de setembro, a Advocacia-Geral da União ajuizou uma ação civil pública contra 17 empresas do setor. A ação pede pelo menos R$ 1 bilhão por danos morais coletivos, além do ressarcimento de despesas relacionadas ao tratamento de pessoas com problemas associados às apostas no SUS. Também foi solicitado o ressarcimento em dobro dos valores apostados por pessoas diagnosticadas com ludopatia.

A ofensiva judicial ocorre poucos dias depois de o governo federal publicar a Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. A medida estabeleceu um cronograma para encerramento das operações e devolução dos valores mantidos nas plataformas pelos apostadores.

O futuro das empresas e os efeitos jurídicos das medidas ainda dependem de decisões administrativas, judiciais e legislativas. Entidades ligadas ao setor contestam a proibição no Supremo Tribunal Federal, enquanto a ação apresentada pela AGU contra as empresas deverá ser analisada pela Justiça Federal. Paralelamente, o governo mantém ações de prevenção e atendimento relacionadas aos impactos financeiros e de saúde associados ao uso problemático das apostas.

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