Os números do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escancaram uma realidade que não pode mais ser tratada como simples estatística: Cuiabá concentra cerca de 88% dos moradores de favelas e comunidades urbanas de Mato Grosso.
Das 81.683 pessoas que vivem nessas áreas em todo o estado, 72.224 estão na Capital. O dado revela uma concentração gigantesca de população em territórios que, historicamente, convivem com problemas de infraestrutura, saneamento, mobilidade, habitação, serviços públicos e regularização fundiária.
O cenário levanta uma pergunta incômoda: como uma cidade que concentra quase nove em cada dez moradores de comunidades urbanas do Estado ainda convive com tamanha desigualdade territorial?
Mato Grosso aparece na 23ª posição entre os estados brasileiros em número de moradores de favelas e comunidades urbanas. O estado supera Acre, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Roraima.
A situação se torna ainda mais preocupante quando os números são distribuídos entre os municípios. Depois de Cuiabá, aparece Várzea Grande, com 8.233 moradores. Sinop registra 610, Rondonópolis 471 e Cáceres 145.
Ou seja: Cuiabá e Várzea Grande concentram mais de 80 mil dos 81,6 mil moradores identificados pelo levantamento em Mato Grosso.
Santa Laura lidera ranking
Dentro de Cuiabá, a desigualdade também aparece de forma contundente.
A Região do Santa Laura lidera entre as comunidades urbanas com maior número de moradores, com 8.197 pessoas. Em seguida aparecem a Região do Parque das Águas Nascentes, com 7.062, e a Região do Paraíso, com 6.446.
O Jardim Vitória aparece na quarta posição, com 5.504 moradores. Depois vêm a Região do Passaredo, com 4.150, e a Região do Residencial do Coxipó, com 4.014.
Somadas, essas seis comunidades reúnem mais de 35 mil pessoas.
São milhares de cuiabanos vivendo em áreas que deveriam estar no centro das políticas públicas, mas que frequentemente acabam lembradas apenas em períodos eleitorais.
Quase 20 km² de comunidades urbanas
O levantamento do IBGE também mostra a dimensão territorial do problema.
As favelas e comunidades urbanas ocupam 19,951 km² em Mato Grosso. Desse total, Cuiabá responde por 17,156 km², aproximadamente 86% da área estadual. Várzea Grande possui outros 2,540 km².
A densidade demográfica dessas localidades chega a 4.104,87 habitantes por km², acima da média do Centro-Oeste, de 3.784,64 habitantes por km².
O problema, portanto, não é apenas de quantidade. É também de concentração populacional e pressão sobre uma infraestrutura que nem sempre acompanha o crescimento das comunidades.
Números expõem falhas de planejamento
Os dados do IBGE deveriam funcionar como um alerta direto para o poder público.
Não é razoável que uma parcela tão expressiva da população esteja concentrada em comunidades urbanas enquanto questões básicas como saneamento, pavimentação, drenagem, transporte público, iluminação, equipamentos de saúde, escolas e regularização fundiária continuam sendo desafios recorrentes.
A existência dessas comunidades não pode ser tratada como um fenômeno inevitável ou como responsabilidade exclusiva dos moradores.
Ela também é resultado de décadas de crescimento urbano desordenado, déficit habitacional e políticas públicas incapazes de acompanhar a expansão da cidade.
E há uma cobrança que não pode ser ignorada: onde estão os investimentos proporcionais ao tamanho desse problema?
O IBGE deixa os números sobre a mesa. Cabe agora aos gestores públicos explicar por que tantas pessoas continuam vivendo em territórios marcados pela vulnerabilidade e quais medidas concretas serão adotadas para mudar essa realidade.
O instituto destaca que os dados podem subsidiar políticas públicas nas áreas de habitação, saneamento, mobilidade, educação, saúde, assistência social e regularização fundiária.
Na prática, o levantamento representa muito mais que números.
É um retrato da desigualdade urbana de Mato Grosso — e um alerta de que Cuiabá não pode continuar crescendo para alguns enquanto milhares permanecem à margem da cidade.














