Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sócia da produtora Go Up Entertainment, passou a ser alvo de investigações após a assinatura de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi gratuito em áreas periféricas da capital. Antes do acordo milionário, documentos públicos apontam que Karina mantinha residência declarada em uma casa simples na Brasilândia, zona norte da cidade, onde viveu por décadas ao lado da mãe, Regina, em um terreno pertencente à Prefeitura de São Paulo.
O imóvel chegou a ser citado por Karina em um processo de usucapião movido por um vizinho no fim de 2024. Após o início do contrato com a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), no entanto, a empresária passou a declarar como endereço residencial um imóvel comercial localizado na Rua Haddock Lobo, 746, 3º andar, próximo à Avenida Paulista. O mesmo endereço foi alugado pelo Instituto Conhecer Brasil para servir de escritório do projeto de Wi-Fi, com despesas de aluguel, condomínio, contas e até um depósito caução de R$ 18 mil pagos com recursos públicos.
O contrato firmado entre o ICB e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia previa a instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos de internet gratuita durante 12 meses. O chamamento público emergencial realizado em 2024 teve apenas uma proposta apresentada: a do próprio Instituto Conhecer Brasil. Relatórios do Tribunal de Contas do Município (TCM) apontaram possíveis irregularidades no processo, como falta de ampla concorrência, critérios considerados genéricos para seleção e valores acima dos praticados pela própria administração municipal em contratos semelhantes. Segundo os documentos, a Prodam realizava serviços parecidos por custos menores.
As investigações também apontam que houve um adiantamento de R$ 26 milhões antes da execução completa dos serviços. Até agora, cerca de 3.200 pontos de Wi-Fi teriam sido instalados. O Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para apurar suspeitas de sobrepreço, execução parcial e possível falta de capacidade técnica do ICB para operar serviços de telecomunicações. A Polícia Civil também instaurou investigação para apurar possível fraude relacionada ao contrato.
Além do Instituto Conhecer Brasil, Karina Ferreira da Gama é sócia única da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Documentos ligados ao projeto mostram que o deputado federal Eduardo Bolsonaro assinou contrato como produtor-executivo, com poderes de gestão financeira da obra, ao lado do ex-secretário de Cultura Mário Frias (PL). O longa também envolve captação de recursos privados citados em investigações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Apesar do contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo, o Instituto Conhecer Brasil não possui histórico consolidado na área de infraestrutura de internet ou telecomunicações antes do projeto. Documentos mostram ainda que tanto o ICB quanto a Go Up Entertainment operam em endereços próximos na região da Avenida Paulista. O caso segue sendo acompanhado pelo Ministério Público e por vereadores da capital paulista, que cobram maior transparência sobre a aplicação dos recursos públicos e a estrutura operacional da entidade.













