A produção do filme “Dark Horse” (“O Azarão”), longa-metragem inspirado na trajetória de Jair Bolsonaro, entrou no centro de uma crise política e financeira após a divulgação de documentos, mensagens e áudios envolvendo negociações milionárias para financiar o projeto. A obra, dirigida por Cyrus Nowrasteh e estrelada por Jim Caviezel, tem estreia prevista para 11 de setembro de 2026 e encerrou as gravações em dezembro de 2025. O roteiro é ligado ao deputado Mario Frias, que atua como produtor executivo, enquanto a produção principal é da Go Up Entertainment, empresa com operações no Brasil e nos Estados Unidos.
A crise ganhou força após reportagem publicada pelo The Intercept Brasil nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026. Segundo o material, o senador Flávio Bolsonaro teria negociado diretamente com o empresário Daniel Vorcaro um aporte de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o longa. A investigação afirma que ao menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido transferidos em seis operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025, por meio de empresas ligadas a Vorcaro, como a Entre Investimentos. Os recursos, segundo a apuração, teriam sido enviados para um fundo no Texas associado a aliados bolsonaristas. Ouça o áudio enviado por Eduardo Bolsonaro.
Mensagens e áudios obtidos pela reportagem mostram Flávio cobrando pagamentos atrasados e alertando para o risco de paralisação das gravações. Em uma das falas reveladas, o senador afirma que “tem muita parcela para trás e está todo mundo tenso”, citando preocupações com compromissos assumidos com ator, diretor e equipe do filme. Nas conversas, Vorcaro era tratado como “irmão”, enquanto o parlamentar demonstrava preocupação com a continuidade da produção. O caso ganhou ainda mais repercussão porque Vorcaro foi preso em investigações relacionadas a supostas fraudes envolvendo o Banco Master, instituição que faliu em 2025 e passou a ser alvo de apurações da Polícia Federal.
Após a divulgação das informações, Flávio Bolsonaro admitiu que buscou “patrocínio privado” para o filme sobre o pai, mas negou qualquer irregularidade. O senador afirmou que não houve uso de dinheiro público nem recursos da Lei Rouanet, classificando a iniciativa como uma tentativa pessoal de captar investimentos para um projeto privado. Ele também alegou que os contatos ocorreram antes de surgirem as acusações mais graves contra Vorcaro e passou a defender a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master. Antes da reportagem vir à tona, Flávio havia negado qualquer participação em negociações de financiamento.
A produtora Go Up Entertainment e sua sócia-administradora, Karina Ferreira da Gama, negaram categoricamente que o filme tenha recebido qualquer valor vindo de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao empresário. Segundo a empresa, toda a produção foi financiada exclusivamente por investidores estrangeiros privados, principalmente norte-americanos, mantidos sob cláusulas de confidencialidade. A produtora admite que Flávio Bolsonaro pode ter apresentado potenciais investidores por iniciativa própria, mas sustenta que nunca houve contratos, tratativas formais ou transferências efetivas relacionadas a Vorcaro.
O deputado Mario Frias também rejeitou qualquer irregularidade e afirmou que “não existe um único centavo” de Daniel Vorcaro no longa-metragem. De acordo com ele, Flávio Bolsonaro não possui participação societária no projeto e teria apenas autorizado o uso da imagem da família Bolsonaro e auxiliado informalmente na aproximação com investidores. A principal contradição apontada desde a revelação do caso está justamente entre as declarações públicas: enquanto Flávio confirma ter negociado apoio financeiro, a produtora e Frias afirmam que nenhuma das tratativas resultou em aportes reais para o filme.
O episódio provocou forte repercussão política e econômica. Aliados de Flávio Bolsonaro avaliam que o caso abalou a pré-candidatura presidencial do senador para 2026, enquanto adversários políticos intensificaram críticas e cobranças por esclarecimentos. Nas redes sociais, cresceram questionamentos sobre o destino dos recursos citados nas investigações e sobre a possibilidade de existência de fundos paralelos ou operações indiretas ligadas à produção do filme. Até o momento, não há conclusão judicial definitiva sobre o caso, mas a expectativa é de que novas apurações jornalísticas e investigações oficiais ampliem a pressão sobre os envolvidos nas próximas semanas.












