Pastor é preso após denúncias de trabalho escravo e abusos em Paço do Lumiar
Uma operação de fiscalização resgatou 37 pessoas em condições análogas à escravidão na igreja Shekinah House Church, localizada em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís, no Maranhão. O caso veio à tona após uma série de denúncias envolvendo o líder religioso David Gonçalves Silva, preso em abril de 2026 durante a Operação “Falso Profeta”, conduzida pela Polícia Civil do Maranhão. Inicialmente, as autoridades haviam divulgado que mais de 40 pessoas teriam sido encontradas no local.
Natural do Ceará e formado em psicologia, David Gonçalves comandava a igreja e também um sítio com cerca de 32 cavalos. Segundo as investigações, ele mantinha forte controle sobre um grupo estimado entre 100 e 150 fiéis ao longo dos últimos anos. As denúncias apontam que o pastor utilizava manipulação religiosa, vigilância constante e isolamento para manter as vítimas sob domínio. Entre os resgatados estavam jovens em situação de rua, dependentes químicos e pessoas com deficiência, que buscavam apoio espiritual e ajuda social. Relatos indicam que os frequentadores eram chamados de “piões”, enquanto os dormitórios recebiam o nome de “baia”.
A operação principal contra o trabalho escravo ocorreu no dia 7 de maio de 2026, com apoio de auditores do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal, Defensoria Pública e Secretaria de Direitos Humanos do Maranhão. As vítimas realizavam atividades sem qualquer remuneração, recebendo apenas comida, abrigo e roupas. Entre as tarefas estavam cuidados com os cavalos, limpeza, construção civil e preparo de alimentos. As jornadas ultrapassavam 12 horas diárias, sem descanso semanal ou férias, e havia relatos de trabalhadores dormindo apenas uma ou duas horas durante períodos de obras intensas.

As autoridades também identificaram condições degradantes no local, incluindo água imprópria para consumo, dormitórios superlotados e sem ventilação, banheiros sem privacidade e ausência de equipamentos de proteção para pessoas que lidavam diretamente com estrume. A Vigilância Sanitária interditou parte da estrutura. Crianças a partir de 10 anos também participavam dos trabalhos, realizando limpeza pesada e atividades com enxada e concreto. Segundo depoimentos, o pastor desencorajava os estudos, afirmando que frequentar escola seria “pecado”.
Os relatos de punições chamaram atenção dos investigadores. Integrantes da igreja afirmaram ter sofrido chicotadas conhecidas como “readas”, utilizando chicotes de cavalo, além de tapas, exposição prolongada ao sol, agressões físicas e privação de comida. Em alguns casos, vítimas eram obrigadas a copiar frases como “Eu preciso obedecer à minha liderança” e “respeitar meu líder” em dezenas de folhas, permanecendo sem dormir como forma de castigo.
Além das denúncias de exploração trabalhista, a investigação também apura abusos sexuais sistemáticos, principalmente contra adolescentes e jovens do sexo masculino. Segundo os depoimentos, o pastor justificava os atos afirmando ser “o anjo da igreja” e dizia que a relação equivalia a uma ligação espiritual com Deus. Algumas vítimas recebiam privilégios, como acesso a celular, alimentação diferenciada e aulas de equitação, como forma de controle psicológico. Pessoas que tentavam fugir eram rastreadas e pressionadas a retornar por meio de manipulação religiosa e emocional.
Outro ponto identificado pelas autoridades foi a presença de 17 pessoas com deficiência, esquizofrenia e dependência química vivendo de forma irregular no local, sem qualquer registro oficial como comunidade terapêutica. O cuidado com esses internos era imposto aos demais integrantes da igreja como parte das tarefas diárias. As investigações também apontam suspeitas de estelionato e controle financeiro exercido pelo pastor sobre os membros da instituição.
Mesmo após o resgate, parte das vítimas afirmou não se considerar explorada e chegou a defender o pastor publicamente. Algumas pessoas demonstraram desejo de retornar ao sítio, comportamento que especialistas compararam a quadros semelhantes à síndrome de Estocolmo e processos de institucionalização religiosa. Segundo os órgãos de fiscalização, o consentimento das vítimas não impede a caracterização do crime de trabalho análogo à escravidão pela legislação brasileira.
As vítimas resgatadas passaram a receber verbas rescisórias, seguro-desemprego especial e acolhimento por parte da rede de assistência social. Parte delas permaneceu temporariamente no local apenas para auxiliar no cuidado dos animais. O caso segue sob investigação e pode resultar em novos desdobramentos nas áreas criminal e trabalhista. Até o momento, a defesa de David Gonçalves Silva não havia se manifestado publicamente.













