Checagem aponta informações falsas e enganosas em entrevista de Flávio Bolsonaro

Uma série de declarações feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, durante entrevista à TV Globo foi questionada por agências de checagem após a exibição do programa na sexta-feira (16). A análise publicada pelo Aos Fatos examinou afirmações sobre economia, gastos públicos, segurança, programas sociais e investigações envolvendo produções cinematográficas. O UOL Confere também publicou uma verificação independente, atualizada na madrugada deste sábado (17), apontando informações falsas, enganosas e exageradas em diferentes trechos da entrevista conduzida pela jornalista Renata Lo Prete.

Entre os principais pontos analisados estão as declarações sobre o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e um suposto pagamento de R$ 30 milhões relacionado a um documentário sobre Lula. Flávio afirmou que a produtora brasileira responsável pelo filme sobre seu pai já havia prestado contas de toda a produção. O UOL Confere classificou a afirmação como falsa, informando que não havia prestação de contas pública que comprovasse a declaração. A produção é alvo de apurações sobre o financiamento, incluindo investigações relacionadas à possível utilização de recursos de origem irregular.

O candidato também declarou que a Polícia Federal teria confirmado que o banqueiro Daniel Vorcaro repassou R$ 30 milhões, “por fora”, para um filme sobre Lula. A checagem classificou essa afirmação como falsa. Segundo o UOL, a Polícia Federal não confirmou o conteúdo de um áudio atribuído a Vorcaro, divulgado pela revista Veja em 9 de outubro. A Procuradoria-Geral da República e a defesa do banqueiro também negaram que ele tivesse prestado depoimento sobre o assunto. O produtor do documentário “Lula”, lançado em 2024 e dirigido por Oliver Stone, afirmou que a obra não recebeu financiamento de Vorcaro.

Na área econômica, Flávio afirmou que a taxa básica de juros estava em 14% e que, em outubro de 2022, as projeções do boletim Focus indicavam uma taxa próxima de 7% para o período atual. O UOL Confere classificou a declaração como enganosa. De acordo com a apuração, a taxa estava em 13,75% desde setembro de 2026, e os boletins Focus publicados em outubro de 2022 não apresentavam projeções para 2026. A primeira estimativa para a taxa de juros daquele ano só foi divulgada em janeiro de 2023, quando o mercado projetava 8%.

Outra afirmação contestada foi a de que o Brasil estaria registrando um recorde de empresas fechadas e de indústrias transferindo suas operações para o Paraguai. A checagem classificou a declaração como falsa. Os dados citados na apuração indicam que o país não registrava recorde de falências empresariais, e que números divulgados sobre empresas que expandiram suas atividades para o Paraguai entre 2007 e 2026 não significavam que todas haviam deixado o Brasil. Muitas mantinham operações no território brasileiro. A análise também ressaltou que inadimplência, recuperação judicial e falência são situações diferentes e não devem ser tratadas como equivalentes.

Na segurança pública, o senador afirmou que o então ministro da Justiça Flávio Dino teria entrado no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, sem policiais ou agentes de segurança. A declaração foi classificada como falsa pelo UOL Confere. Segundo a apuração, Dino visitou a comunidade em 2023, a convite da organização Redes da Maré, para participar de um evento sobre segurança pública. A visita contou com a mobilização de diferentes forças de segurança, incluindo as polícias Militar, Civil, Federal e Rodoviária Federal, além do Corpo de Bombeiros.

As checagens também analisaram comparações entre os resultados fiscais das empresas estatais nos governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Flávio afirmou que as estatais haviam registrado R$ 36 bilhões em prejuízos durante o governo Lula. O UOL Confere classificou o número como exagerado. Considerando os resultados primários das empresas estatais federais, a apuração somou déficits de R$ 2,27 bilhões em 2023, R$ 8,07 bilhões em 2024, R$ 5,87 bilhões em 2025 e R$ 7,6 bilhões no primeiro semestre de 2026, totalizando R$ 23,81 bilhões no período considerado. No governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, os resultados somaram superávit de R$ 24,43 bilhões, conforme os dados citados na reportagem.

Outro ponto examinado foi a afirmação de que Bolsonaro teria triplicado o valor do Bolsa Família, elevando o benefício médio de R$ 190 para R$ 600. A checagem classificou a declaração como enganosa. O programa foi substituído pelo Auxílio Brasil em 2021, e o valor mínimo chegou a R$ 600 em agosto de 2022, após uma emenda constitucional aprovada pelo Congresso Nacional que acrescentou R$ 200 mensais ao benefício. O aumento, contudo, tinha validade até dezembro daquele ano, e a proposta orçamentária enviada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa o retorno do valor a R$ 405.

As verificações publicadas após a entrevista mostram a importância de confrontar declarações de candidatos com documentos públicos, dados oficiais e apurações independentes. As classificações de falso, enganoso e exagerado correspondem a critérios específicos de cada agência e não significam que todas as afirmações feitas pelo entrevistado tenham sido incorretas. A análise do Aos Fatos pode receber atualizações à medida que novas informações sejam verificadas, enquanto outras agências, como o UOL Confere, apresentam suas próprias conclusões e metodologias de checagem.

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