População de animais silvestres cai 73% em 52 anos, alerta relatório global

Fabiano Veneza/Inea

A população mundial de animais silvestres monitorados diminuiu, em média, 73% ao longo de 52 anos, segundo o Relatório Planeta Vivo 2026, divulgado pela organização ambiental WWF em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL). Publicado em 7 de outubro, o levantamento reúne dados de 35.803 populações de 5.790 espécies de vertebrados, incluindo mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes, considerando o período entre 1970 e 2022. O estudo alerta para a dimensão da perda de biodiversidade e aponta a degradação dos habitats naturais como uma das principais ameaças à vida selvagem.

A situação mais preocupante foi identificada na América Latina e no Caribe, onde o índice registrou uma redução média de 95% nas populações monitoradas. Na África, a queda foi de 80%, enquanto a região da Ásia-Pacífico apresentou redução de 49%. Na Europa e na Ásia Central, o declínio registrado foi de 23%, e na América do Norte, de 28%. Os resultados demonstram diferenças regionais significativas, embora a tendência geral seja de redução das populações de animais silvestres.

Entre os ambientes naturais analisados, os ecossistemas de água doce apresentaram o maior declínio, com redução média de 85% nas populações monitoradas. Nos ambientes terrestres, a queda foi de 69%, enquanto nos ecossistemas marinhos chegou a 59%. Segundo o relatório, a perda e a fragmentação dos habitats, a exploração excessiva dos recursos naturais, as mudanças climáticas, a poluição e a disseminação de espécies invasoras estão entre os fatores que contribuem para esse cenário.

O documento também relaciona a perda de biodiversidade aos sistemas de produção de alimentos, energia e finanças. A expansão agropecuária, o desmatamento, a alteração dos cursos dos rios e a degradação dos ambientes naturais reduzem as condições necessárias para alimentação, reprodução e sobrevivência de diversas espécies. No Brasil, essas pressões representam uma preocupação especial devido à diversidade de ecossistemas, incluindo a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica.

Apesar do cenário preocupante, o levantamento apresenta exemplos de recuperação de espécies por meio de ações de conservação. Entre os casos destacados estão o aumento das populações de tigres, tartarugas-verdes, atuns-azuis e elefantes do sul da África. O relatório aponta que medidas como a proteção de habitats, o combate à caça ilegal, a recuperação de áreas degradadas e a cooperação entre governos e comunidades podem produzir resultados positivos quando mantidas ao longo do tempo.

Um dos pontos fundamentais do estudo é a interpretação correta dos números. A redução média de 73% não significa que 73% de todos os animais do planeta desapareceram. O índice mede a variação média no tamanho das populações monitoradas desde 1970. Segundo a WWF, aproximadamente metade das populações incluídas no levantamento permaneceu estável ou apresentou crescimento, embora as reduções mais acentuadas tenham determinado o resultado global negativo.

O Relatório Planeta Vivo 2026 defende mudanças na maneira como a sociedade produz alimentos, gera energia e direciona investimentos, além do fortalecimento das políticas de conservação. A organização ressalta que iniciativas isoladas não são suficientes para reverter a tendência mundial de perda da biodiversidade. A proteção dos ecossistemas, a restauração de áreas naturais e a redução das pressões humanas sobre a fauna são apontadas como medidas essenciais para preservar espécies e manter serviços ambientais dos quais dependem a disponibilidade de água, a produção de alimentos e o equilíbrio climático.

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