O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, chega ao julgamento desta terça-feira, 15 de setembro, no centro de uma das maiores crises internas recentes da Corte. A partir das 10h, o plenário extraordinário analisará a Petição 16.662, que reúne um relatório da Polícia Federal sobre mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes. O caso colocou Fachin diante do desafio de conduzir um processo que envolve diretamente integrantes do próprio Supremo e que provocou um confronto público entre Moraes e o ministro André Mendonça.
A crise ganhou força depois que Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master, retirou o sigilo de parte de documentos da Operação Compliance Zero. Entre os materiais estão 52 mensagens que investigadores afirmam terem sido enviadas por Vorcaro a um número utilizado por Moraes. Segundo a apuração, as conversas ocorreram entre 2023 e 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso preventivamente. Uma das mensagens envolve um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Em outro trecho, Vorcaro aparenta buscar informações sobre uma possível operação da Polícia Federal contra ele. Os investigadores afirmaram que as respostas atribuídas a Moraes não puderam ser recuperadas.
Moraes nega ter mantido contato com Vorcaro e questionou a forma como os documentos foram divulgados. O ministro também apresentou um chamado “relatório de inteligência” que, segundo ele, apontaria para uma atuação de Mendonça direcionada contra seus desafetos políticos. O documento apresentado por Moraes, porém, não possui assinatura nem identificação da Polícia Federal, segundo a Agência Brasil. Na sequência, Moraes pediu a Fachin que Mendonça fosse investigado por possíveis crimes e irregularidades relacionados à condução do caso.
Fachin decidiu separar os processos. No sábado, 12 de setembro, negou o pedido de Moraes para que as questões envolvendo os dois ministros fossem julgadas conjuntamente. Com isso, a sessão desta terça-feira ficará restrita à Petição 16.662, relacionada às mensagens de Vorcaro e Moraes. Já a análise do pedido de investigação contra Mendonça foi marcada para 23 de setembro. Fachin justificou a decisão afirmando que os procedimentos possuem objetos diferentes e estão em momentos processuais distintos, e que o processo contra Mendonça ainda não tinha sua instrução preliminar concluída.
Na preparação para o julgamento, Fachin também determinou que a Polícia Federal fornecesse informações sobre a custódia e o conteúdo extraído do celular de Vorcaro. A medida ocorreu depois que os ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes solicitaram acesso integral aos dados. A Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet, reforçou a necessidade de que todos os ministros tivessem conhecimento prévio da íntegra do material antes da sessão. Na segunda-feira, 14 de setembro, o conteúdo completo do telefone foi encaminhado pela Polícia Federal aos gabinetes de Zanin e Gilmar Mendes.
A condução da crise também levou Fachin a cancelar sessões plenárias ordinárias do STF na semana passada, evitando um encontro público entre os ministros antes do julgamento. O presidente da Corte assumiu a relatoria da Petição 16.662 depois que Mendonça remeteu o caso à Presidência do Supremo. A decisão está relacionada ao entendimento de que cabe ao plenário processar e julgar eventuais crimes atribuídos a ministros da própria Corte.
O julgamento desta terça-feira, portanto, não representa uma condenação ou uma conclusão definitiva sobre a relação entre Moraes e Vorcaro. O plenário deverá analisar o material reunido e decidir sobre a possibilidade de abertura de uma investigação. O episódio, no entanto, coloca em teste a capacidade de Fachin de arbitrar o conflito entre os ministros e preservar a atuação colegiada do Supremo em meio a uma disputa que envolve documentos sigilosos, investigações da Polícia Federal e acusações recíprocas entre integrantes da Corte.














