Doadores autuados pelo Ibama financiam candidatos nas eleições de 2026

Um levantamento divulgado pela Repórter Brasil nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, identificou 267 doadores de campanhas eleitorais que possuem autos de infração lavrados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desde 1º de janeiro de 2000. Segundo a apuração, essas pessoas destinaram R$ 6.615.680,04 a 136 candidatos nas eleições deste ano, entre postulantes aos governos estaduais, Senado Federal, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas.

O levantamento cruzou os dados de prestação de contas disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 31 de agosto com os registros de autuações do Ibama vinculados aos CPFs dos doadores. A pesquisa considerou apenas autos lavrados contra as próprias pessoas físicas, sem incluir infrações atribuídas a empresas das quais elas são ou foram sócias. Entre as infrações aparecem desmatamento, descumprimento de embargo e funcionamento de atividades potencialmente poluidoras sem licença.

Mato Grosso aparece com destaque na apuração. Um dos casos envolve Antonio Galvan (Avante), candidato ao Senado, que recebeu R$ 200 mil dos irmãos Felipe e Rafael Bilibio, produtores rurais de Vera, no norte do Estado. Felipe possui quatro autos do Ibama, que somam R$ 1,1 milhão, enquanto Rafael aparece em três autos, totalizando R$ 1,37 milhão. Os registros mencionados pela reportagem são de 2016 e envolvem corte raso de vegetação amazônica, impedimento de regeneração natural e intervenção em área embargada.

Em um dos autos, Rafael Bilibio foi autuado em R$ 1,28 milhão por impedir a regeneração de 255 hectares de vegetação nativa amazônica na Fazenda Floresta I, em Vera. De acordo com o Ibama, a área já estava embargada desde 2007. A advogada que representa os irmãos afirmou à reportagem que não poderia comentar o andamento das autuações nem as motivações pessoais relacionadas às doações eleitorais.

Outro candidato de Mato Grosso citado é Otaviano Pivetta (Republicanos), que disputa o Governo do Estado. A campanha recebeu R$ 150 mil de dois financiadores com autos registrados no Ibama. Osmar Ribeiro de Mello doou R$ 100 mil e possui quatro autos que somam R$ 2 milhões, incluindo uma autuação de R$ 1,2 milhão, de 2013, por destruição de 251 hectares de floresta amazônica em Feliz Natal.

Os outros R$ 50 mil foram doados pelo ex-prefeito de Lucas do Rio Verde e fundador da Fiagril, Marino José Franz. Ele foi autuado em R$ 793 mil em 2015 por executar manejo florestal em 792 hectares das fazendas Taipas I e II, em Nova Maringá, sem autorização prévia do órgão ambiental, segundo o levantamento. A campanha de Pivetta e os dois doadores não responderam aos questionamentos enviados pela Repórter Brasil.

A candidata a deputada estadual Samantha Brunini (PL), conhecida como “Samantha do Abilio”, também aparece no levantamento. Até 31 de agosto, ela havia declarado R$ 301,8 mil em recursos privados, dos quais R$ 300 mil vieram de Elizeu Zulmar Maggi Scheffer, fundador do Grupo Scheffer. O empresário foi autuado pelo Ibama em 2002 em R$ 24 mil por desmatar 200 hectares de Cerrado na Fazenda Rafaela, em Sapezal.

A apuração nacional ainda cita o governador de Minas Gerais e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD), que recebeu R$ 200 mil de José Maria Bortoli, cofundador do Grupo Bom Futuro, conglomerado do agronegócio fundado em Mato Grosso. Bortoli aparece em quatro autos do Ibama que somam R$ 178,6 mil em valores nominais. Um dos autos foi cancelado e os demais envolvem registros relacionados a desmatamento, dano em área de reserva e exploração de madeira sem licença válida.

No Paraná, o deputado federal Zeca Dirceu (PT), candidato à reeleição, também recebeu R$ 200 mil de um doador com histórico de autuações. Odacir Antonelli, fundador do Grupo Repinho, possui seis autos do Ibama que somam R$ 3,81 milhões em valores nominais. A empresa informou que as autuações são objeto de recursos administrativos e judiciais e afirmou considerar inadequada qualquer antecipação de conclusões enquanto não houver decisão definitiva.

Em Mato Grosso, a discussão sobre financiamento eleitoral e meio ambiente ganhou um segundo capítulo com outra reportagem da Repórter Brasil, publicada em 31 de agosto. A matéria mostrou que Sheila Klener (PSDB), candidata a deputada estadual e servidora de carreira da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso, assinou licenças ambientais para empreendimentos ligados a dois empresários que posteriormente financiaram sua campanha.

Até 30 de agosto, Sheila havia declarado R$ 130 mil em doações, sendo R$ 100 mil de Valdinei Mauro de Souza, conhecido como Nei Garimpeiro, e R$ 30 mil de Wagner Lopes Gheler. Os dois estão ligados ao setor mineral. Documentos analisados pela reportagem mostram que Sheila, na condição de coordenadora de Mineração da Sema, assinou licenças relacionadas a empreendimentos dos dois doadores.

No caso de Nei Garimpeiro, a reportagem identificou uma licença de instalação assinada por Sheila em julho de 2023, seguida por uma licença de operação assinada em novembro daquele ano. A terceira licença foi emitida em 19 de março de 2026, com validade até março de 2029, autorizando a extração de minerais metálicos em Poconé. O documento também traz a assinatura de Sheila como coordenadora de Mineração.

O empresário possui cinco autos do Ibama que, nos valores nominais registrados na época, somam R$ 1,066 milhão. Dois deles foram lavrados em 10 de abril de 2023, cerca de três meses antes da primeira licença identificada pela reportagem. Um dos autos, no valor de R$ 620,5 mil, está relacionado à comercialização, utilização e manutenção de mercúrio metálico em depósito em desacordo com exigências legais.

Wagner Lopes Gheler, responsável pela outra doação, é geólogo e presidente da Nossacoop. Em 19 de março de 2026, a Sema emitiu licença de operação para a cooperativa realizar extração de metais preciosos em Peixoto de Azevedo. O documento foi assinado por Sheila. A Nossacoop possui sete autos de infração lavrados pelo Ibama em agosto de 2024, todos no Pará, que somam R$ 210.780, além de sete termos de embargo.

Sheila Klener afirmou que sua participação nos processos ocorreu no “exercício regular das atribuições do cargo”. A candidata explicou que os pareceres técnicos são elaborados por analistas ambientais e que cabe à coordenação assinar os documentos decorrentes do fluxo de licenciamento. Também afirmou conhecer Nei Garimpeiro há alguns anos por razões institucionais e Wagner Gheler desde a época da graduação em Geologia.

Gheler afirmou que a doação foi feita em razão da atuação e do conhecimento de Sheila nos setores mineral e ambiental. Também declarou que conhece a candidata desde 1993 e negou qualquer relação que pudesse indicar interferência indevida. Nei Garimpeiro afirmou que suas doações foram espontâneas, feitas dentro da lei e sem condicionamento ou expectativa de contrapartida.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente confirmou que Sheila ocupava formalmente a Coordenadoria de Mineração nas datas das licenças. Segundo a pasta, sua atuação consistia na validação dos pareceres. A Sema também declarou que a existência de autos de infração ou embargos não impede automaticamente a concessão de uma licença ambiental, desde que os requisitos legais e técnicos sejam atendidos.

Os dois levantamentos precisam ser interpretados com uma distinção importante: possuir um auto de infração do Ibama não significa, por si só, ter uma condenação definitiva por crime ambiental. Os próprios dados apresentados pela Repórter Brasil apontam que os autos podem ser contestados administrativamente, cancelados ou permanecer sob recurso. Da mesma forma, as doações eleitorais citadas nas reportagens não são apresentadas como ilegais, mas como relações identificadas a partir do cruzamento de bases públicas.

O ponto de atenção levantado pelas reportagens está na conexão entre financiadores de campanhas, atividades econômicas sujeitas à fiscalização ambiental e, no caso de Sheila Klener, o fato de os doadores estarem ligados a empreendimentos cujos processos de licenciamento tiveram sua assinatura enquanto ela exercia função na Sema.

As prestações de contas eleitorais continuam sendo atualizadas pelo TSE durante o processo eleitoral. Por isso, os valores apresentados nos levantamentos refletem a base disponível até 31 de agosto de 2026 e podem sofrer alterações conforme novas informações sejam encaminhadas à Justiça Eleitoral.

Os casos colocam o financiamento privado das campanhas de 2026 no centro do debate sobre transparência eleitoral e relações entre política, agronegócio, mineração e fiscalização ambiental. No caso de Mato Grosso, a discussão ganha dimensão adicional porque os principais exemplos citados envolvem candidatos a deputado estadual, Senado e Governo do Estado e pessoas ou grupos com atuação relevante em setores econômicos ligados ao uso de recursos naturais.

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