Empresas de IA destroem livros para ampliar treinamento de modelos

Empresas de inteligência artificial estão comprando milhares de livros físicos, retirando suas encadernações e destruindo os exemplares para digitalizar o conteúdo e utilizá-lo no treinamento de modelos de IA. A prática tem como objetivo ampliar a qualidade das bases de dados com textos produzidos por humanos, especialmente obras publicadas antes da popularização da inteligência artificial generativa, consideradas mais confiáveis e menos suscetíveis ao chamado “AI slop”, termo usado para descrever conteúdos gerados por IA que acabam sendo reutilizados por outros sistemas.

Segundo reportagens dos sites Futurism e 404 Media, empresas especializadas passaram a adquirir livros em grandes quantidades, com pedidos que variam de mil a até um milhão de exemplares. Após a compra, as lombadas são removidas por equipamentos industriais para permitir a digitalização rápida de todas as páginas. O processo torna impossível reconstruir o livro físico, o que tem gerado críticas de especialistas, principalmente quando envolve obras raras, antigas ou fora de catálogo.

Outro ponto que alimenta o debate é a questão dos direitos autorais. Nos Estados Unidos, empresas do setor têm recorrido à chamada “doutrina da primeira venda” (first-sale doctrine), que permite ao proprietário de um exemplar físico utilizá-lo livremente. Em um processo envolvendo a Anthropic, um juiz considerou que a digitalização dos livros para fins de treinamento de inteligência artificial poderia ser enquadrada como uso transformativo (“fair use”), decisão que reforçou as discussões sobre os limites legais da utilização de obras protegidas por direitos autorais no desenvolvimento de modelos de IA.

A repercussão do tema aumentou após a divulgação de novos detalhes sobre esse mercado de aquisição em massa de livros físicos. Especialistas em preservação cultural alertam que a destruição sistemática de exemplares pode comprometer a conservação de obras difíceis de substituir, enquanto representantes do setor editorial defendem que o avanço da inteligência artificial precisa ser acompanhado por regras mais claras sobre direitos autorais, preservação do patrimônio literário e remuneração de autores. O tema continua no centro do debate internacional sobre os impactos da IA na produção e no uso de conteúdo intelectual.

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