Áreas de mineração com multa por uso irregular de mercúrio produziram quase R$ 1 bi em ouro no MT

ÁREAS DE MINERAÇÃO operadas por quatro mineradoras do Mato Grosso registraram R$ 927 milhões em valor declarado de venda de ouro depois de o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ter realizado autuações e apreensões pelo uso ou armazenamento, nesses locais, de mercúrio sem comprovação de origem legal. 

Os dados são de um levantamento da Repórter Brasil. A reportagem fez o cruzamento entre dados públicos do Ibama e informações sistematizadas pela organização ambientalista Greenpeace a partir de bases públicas da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) e do cadastro minerário, da ANM (Agência Nacional de Mineração).

A cifra representa quanto rendeu a venda do ouro declarado como proveniente de cada área de mineração. A detentora do título minerário e a compradora do ouro são obrigadas a fornecer esses dados para o cálculo dos royalties que devem ser pagos à União, estados e municípios pela exploração mineral. 

As autuações e apreensões do Ibama tiveram como alvo quatro mineradoras do Mato Grosso, estado que concentra polos históricos de garimpo e mineração de ouro: Jonas Gimenez Rodrigues Mineração, VM Mineração e Construção Eireli, Salinas Gold Mineração e Alain Stephane Riviere Mineração. Com a exceção da Jonas, as outras três foram investigadas na Operação Hermes, ação conjunta da PF (Polícia Federal) e do Ibama de combate a esquemas de comércio ilegal de mercúrio no Brasil. O processo judicial referente à operação segue em segredo de Justiça. 

O mercúrio é usado na mineração para formar uma liga com o ouro e separá-lo dos demais materiais extraídos. Parte do metal chega aos rios e pode se acumular nos peixes consumidos por indígenas e populações ribeirinhas. No organismo, a contaminação por mercúrio pode comprometer movimentos, equilíbrio, memória, fala, visão e audição. Gestantes são especialmente vulneráveis, já que o metal pode prejudicar a formação do cérebro do feto.

Entre os Munduruku, uma pesquisa coordenada pela Fiocruz em 2021 revelou que 60% dos indígenas da Terra Indígena Sawré Muybu, na bacia do rio Tapajós, no Pará, tinham mercúrio no organismo acima do limite tolerado pela OMS (Organização Mundial da Saúde). O território é próximo aos rios Tapajós e Jamanxim, onde ocorre exploração garimpeira desde a década de 1950. A Fiocruz registrou crianças Munduruku com microcefalia, malformações e graves dificuldades para andar, falar e aprender.

Mineradora autuada diz ter parado de usar mercúrio 

Não há ilegalidade na extração e comercialização de ouro em áreas onde anteriormente ocorreram autuações e apreensões por uso de mercúrio sem comprovação de origem legal. Mas, para Ariene Cerqueira, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, empresas que continuam operando depois de autuadas por irregularidades envolvendo o metal deveriam ser alvo de checagem pela ANM sobre a procedência do insumo. 

“Se as empresas continuam usando mercúrio em suas operações, precisam ser investigadas para saber sua origem lícita”, afirma. “Quando há registro de uso de uma substância proibida ou sem origem comprovada, a exploração mineral não pode seguir como se nada tivesse acontecido”, avalia.

Uma das empresas autuadas pelo Ibama, a Jonas Gimenez Rodrigues Mineração afirmou à Repórter Brasil que deixou de utilizar mercúrio em suas atividades em junho de 2025, após solicitação feita pelo órgão ambiental durante a fiscalização. A mineradora sustenta que o uso do metal estava previsto na metodologia aprovada pelo licenciamento ambiental (leia aqui a resposta na íntegra).

Nesse mesmo mês, fiscais do Ibama encontraram 639,7 gramas de mercúrio dentro de uma central de beneficiamento de ouro da empresa em Nossa Senhora do Livramento (MT). A mineradora recebeu duas autuações: por armazenar o mercúrio sem origem legal e por atuar em desacordo com a licença ambiental. O metal foi apreendido pelo Ibama na ocasião. 

As coordenadas indicadas pelo órgão ambiental coincidem com duas áreas de mineração vinculadas à Jonas. Ambas ocupam exatamente a mesma área, mas possuem regras de exploração mineral diferentes, de acordo com os critérios da ANM. Um deles é uma PLG (Permissão de Lavra Garimpeira), que autoriza a extração mineral. O outro encontra-se na fase de autorização de pesquisa, etapa destinada ao estudo da jazida.

As declarações referentes aos dois processos à CFEM somaram R$ 91,2 milhões em vendas de ouro e minério de ouro realizadas entre julho de 2025 e março de 2026, depois da fiscalização. Desse total, R$ 71,9 milhões foram declarados como provenientes da PLG. Os outros R$ 19,3 milhões foram vinculados ao processo em fase de autorização de pesquisa.

Para Ariene Cerqueira, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, empresas que continuam operando depois de autuadas por irregularidades envolvendo o metal deveriam ser alvo de checagem pela ANM sobre a procedência do insumo (Foto: Divulgação Hermes II/Ibama)
Para Ariene Cerqueira, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, empresas que continuam operando depois de autuadas por irregularidades envolvendo o metal deveriam ser alvo de checagem pela ANM sobre a procedência do insumo (Foto: Divulgação Hermes II/Ibama)

O ritmo das declarações referentes aos dois processos mais do que quintuplicou depois das autuações. Entre agosto de 2021, primeiro mês com valor registrado no levantamento, e maio de 2025, mês anterior à fiscalização, os processos mencionados registraram R$ 82,5 milhões em venda de ouro, uma média de R$ 1,8 milhão por mês. Depois das autuações, entre julho de 2025 e março de 2026, foram declarados R$ 91,2 milhões, média de R$ 10,1 milhões por mês.

Para a especialista do WWF-Brasil, declarações milionárias em áreas com autorizações de pesquisa também deveriam ser fiscalizadas pela ANM. Cerqueira diz que esse tipo de processo pode admitir retirada e venda de pequenas quantidades de minério, por exemplo para avaliar a viabilidade econômica da área. 

“O problema é quando a fase de pesquisa passa a concentrar valores muito elevados de produção. Existem casos de áreas que nunca evoluem para PLGs e recolhem quantidades absurdas de CFEM, sem título realmente válido para minerar. E a ANM sabe disso”, afirma.

Em resposta à Repórter Brasil, a Jonas Gimenez Rodrigues Mineração afirmou que as defesas administrativas apresentadas pela empresa ao Ibama aguardam análise do órgão e que o mercúrio foi adquirido de empresas cadastradas no Cadastro Técnico Federal (registro obrigatório no Ibama), sem indícios de irregularidades no momento da compra. 

Sobre as declarações de ouro no processo minerário sob o status de “autorização de pesquisa”, a empresa disse que uma PLG de sua titularidade coexiste na mesma área.  “Trata-se de situação técnica e jurídica perfeitamente admitida”, declarou (leia aqui a resposta na íntegra).

“Omissão grave” da ANM, avaliou MPF

A ANM não solicita dados sobre uso de mercúrio metálico ao analisar os pedidos de lavra garimpeira e também não exige, em títulos minerários de qualquer espécie, documentos que comprovem a procedência legal do mercúrio usado na mineração de ouro, segundo informação repassada pela própria agência reguladora ao MPF (Ministério Público Federal).

O esclarecimento da ANM consta em um inquérito civil aberto em 2024 para apurar possível uso de mercúrio de procedência ilícita em lavras garimpeiras autorizadas pela agência nos estados da Amazônia Ocidental.

Uma recomendação à ANM expedida em agosto de 2025 pelo procurador da República André Porreca afirma que essa ausência de controle representa “grave falha de regulação e de fiscalização” e que a agência “incorre em omissão grave” ao conceder títulos de mineração sem exigir a comprovação da técnica usada para separar ou purificar o metal.

Na recomendação, o MPF deu 90 dias para que a ANM passasse a exigir essa comprovação, negasse pedidos de títulos que incluíssem o uso de mercúrio e revisasse títulos já concedidos no Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima.

O MPF informou à reportagem que a ANM não acatou as recomendações para reforçar o controle sobre o uso de mercúrio nos garimpos. Segundo o órgão, a agência reconheceu a insuficiência de seus mecanismos de fiscalização, mas alegou que as mudanças seriam incluídas futuramente em novas regras para as permissões de lavra garimpeira.

A recusa levou o MPF a pedir, em junho de 2026, a inclusão da ANM como ré em uma ação civil pública. A ação busca, entre outras medidas, suspender títulos de garimpos que utilizam mercúrio e obrigar os órgãos públicos a reforçar o controle ambiental dessas operações. O pedido foi aceito pela Justiça. 

“A ANM não pode simplesmente receber uma licença e deixar de verificar como aquela exploração ocorre. O título minerário precisa ser analisado também à luz do método usado na atividade”, pontua Ariene Cerqueira, do WWF-Brasil.

Em resposta à Repórter Brasil sobre a acusação de “omissão grave” feita pelo MPF e sua inclusão como ré na ação civil pública, a ANM afirmou que não permaneceu inerte e que “parte relevante das questões apontadas é enfrentada administrativa e normativamente”. A agência disse ter intensificado o cruzamento de dados de produção, arrecadação e informações geoespaciais.

A agência argumentou, contudo, que não possui competência legal para fiscalizar a importação, comercialização, aquisição e uso do mercúrio e que ainda avalia como aperfeiçoar os dados exigidos dos titulares das áreas de mineração.

A ANM não respondeu se passou a exigir a comprovação do método de beneficiamento nem se suspendeu ou anulou algum título por uso de mercúrio ou falta de comprovação de uma técnica alternativa (leia aqui a resposta na íntegra).

Investigadas pela PF movimentaram R$ 836,1 milhões

O uso de mercúrio ilegal foi alvo da Operação Hermes, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ibama em dezembro de 2022. A investigação revelou a atuação de uma suposta quadrilha que teria desviado 7 toneladas de mercúrio para extração de ouro na Amazônia. 

Segundo a PF, empresas eram usadas para dar aparência regular a carregamentos de mercúrio que teriam entrado ilegalmente no país. Depois, o metal era vendido a mineradoras e garimpeiros. 

O levantamento da Repórter Brasil para esta reportagem identificou três mineradoras investigadas na operação Hermes: Salinas Gold, Alain Stephane Riviere e VM. Elas foram apontadas pela Polícia Federal como compradoras do mercúrio de origem ilegal e alvo de medidas cautelares. Juntos, os processos minerários titulados por essas empresas na ANM registraram R$ 836,1 milhões em valor declarado de ouro entre 2023 e 2026.

Segundo representação policial citada em decisão judicial sobre o caso, pessoas ligadas à gestão da Salinas e da VM integravam o grupo de principais compradores de mercúrio do grupo investigado. 

No mesmo dia da primeira fase da Operação Hermes, o Ibama autuou a Salinas por manter em depósito 5,7 kg de mercúrio metálico em desacordo com a legislação. A coordenada geográfica da autuação informada pelo órgão fica dentro de uma concessão de lavra titulada pela empresa em Nossa Senhora do Livramento (MT). Depois da autuação, entre 2023 e 2026, esse processo registrou R$ 575 milhões em valor declarado de minério de ouro.

Em resposta à Repórter Brasil, a Salinas afirmou que foi adquirida por outro grupo em 2024 e que os fatos mencionados ocorreram sob a administração anterior. “A empresa esclarece, ainda, que não utiliza mercúrio em seu processo produtivo”, escreveu. Segundo a companhia, as operações atuais seguem critérios de conformidade ambiental e regulatória (leia aqui a resposta na íntegra).

Altamente tóxico, o mercúrio é usado na mineração de ouro (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)
Altamente tóxico, o mercúrio é usado na mineração de ouro (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Também procurado, Valdinei Mauro de Souza, sócio da Salinas na época da autuação, afirmou que as defesas apresentadas ao Ibama ainda aguardam decisão. Segundo ele, o mercúrio comprado possuía estoques registrados no Cadastro Técnico Federal e não levantava suspeitas naquele momento. Ele afirmou ainda que a Salinas deixou de usar o metal antes de ser vendida e que as demais minas do Fomentas Participação — grupo minerador do qual é sócio atualmente — também não o utilizam (leia aqui a resposta na íntegra).

Em Poconé (MT), também no centro-sul do Mato-Grosso, a Alain Stephane Riviere Mineração foi autuada pelo Ibama em dezembro de 2022 por manter em depósito 73,5 kg de mercúrio metálico e por apresentar informação falsa sobre a compra de 34,5 kg do metal. Em 2025,  novo auto de infração do Ibama apontou depósito de 975 gramas de mercúrio em desacordo com a legislação.

No caso da Alain, a PLG sobreposta ao ponto da apreensão de mercúrio em Poconé não registrou arrecadação posterior de CFEM. Entre 2023 e 2026, a arrecadação veio de processos minerários próximos, de titularidade da empresa, que formam um conjunto contíguo de áreas minerárias no município. Esses processos declararam R$ 180,1 milhões em ouro e minério de ouro depois do primeiro episódio registrado pelo Ibama.

Já a VM Mineração e Construção Eireli teve  7,75 kg de mercúrio metálico apreendido pelo Ibama  em Nossa Senhora do Livramento, também em dezembro de 2022. O termo de apreensão registra que o metal era comercializado em desacordo com as exigências legais. 

A coordenada informada pelo Ibama na autuação fica sobreposta a uma PLG titulada pela empresa que, entre 2023 e 2026, após a apreensão, declarou R$ 966 mil em minério de ouro à CFEM. Outros processos minerários da VM no entorno —  a maioria em fase de autorização de pesquisa — declararam R$ 80,1 milhões no mesmo período.

Procuradas, a Alain Stephane Riviere Mineração e a VM Mineração não responderam aos questionamentos da reportagem.

Fonte: Repórter Brasil

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