Prestes a completar 85 anos no próximo 8 de junho e celebrando 60 anos de sacerdócio, o padre José Fernandes de Oliveira, conhecido nacionalmente como Padre Zezinho, volta a enfrentar críticas de setores tradicionalistas da Igreja Católica. Autor de mais de 1,8 mil músicas e considerado um ícone do catolicismo brasileiro, ele afirma que tem sido alvo constante de ataques. “Todos os dias eu sou agredido”, declarou em entrevista à BBC News Brasil. “Falam até que eu sou um câncer para a Igreja. Não desejo o câncer para ninguém, até porque tenho um em tratamento.”
A controvérsia mais recente teve início em maio, após o religioso compartilhar em sua página oficial no Facebook, que reúne mais de 1 milhão de seguidores, um artigo do filósofo e sociólogo Romero Venâncio, professor da Universidade Federal de Sergipe. No texto, o acadêmico criticava o que chamou de “escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais”, associando-os a grupos tradicionalistas e à direita católica. A repercussão foi imediata e intensa, com circulação de vídeos falsos associando o padre ao comunismo, além de ataques e calúnias.
Padre Zezinho, no entanto, relativiza a dimensão das críticas. “Mas essa gente é 2% [dos católicos]. Os outros 98% querem catequese, querem atualização. A maioria quer o Vaticano 2º, a maioria quer as encíclicas sociais”, afirmou. Ele se refere ao Concílio Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965, que promoveu a modernização da Igreja, incluindo a celebração das missas nas línguas locais e o reforço do compromisso social com os mais pobres. Também menciona as encíclicas sociais inauguradas por Leão 13 com a Rerum Novarum, tradição que, segundo ele, fundamenta sua atuação pastoral.
Mineiro nascido em Machado e criado em Taubaté, Zezinho pertence à Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, fundada por Léon Gustave Dehon. Ordenado padre em setembro de 1966, nos Estados Unidos, ele acompanhou à distância as transformações do Concílio Vaticano 2º enquanto estudava Teologia em Hales Corners, perto de Milwaukee. De volta ao Brasil, passou a usar violão nas celebrações e a dialogar com os jovens, em sintonia com os novos tempos da Igreja. Desde então, também convive com críticas de setores conservadores, que já classificaram suas músicas como “adocicadas” e seus encontros como “alucinógenos espirituais”.
Em 2012, o sacerdote sofreu um acidente vascular cerebral e ficou sete meses sem conseguir falar. “Deus me trouxe de volta”, disse. No ano seguinte, foi diagnosticado com câncer de próstata, doença que segue em tratamento e sob controle. “Sou um enfermo que se controla e consegue se cuidar”, afirmou. Atualmente, vive no convento do Sagrado Coração de Jesus, em Taubaté, conhecido como Conventinho, onde também funciona o Memorial Padre Zezinho, espaço dedicado ao seu acervo.
Ao longo da carreira, ele transitou entre diferentes correntes do catolicismo. Manteve amizade com nomes como Jonas Abib, fundador da Canção Nova e ligado à Renovação Carismática Católica, e o jesuíta Casimiro Irala. Embora frequentemente associado à Teologia da Libertação, Zezinho rejeita rótulos. “Sou da TL bíblica, não da TL marxista”, afirmou. “Não sou esquerdista, nem direitista, nem centrista. Eu sou catequista. Sou transformador, sou explicitador.”
Mesmo diante das críticas, ele afirma não ter medo da exposição pública. “Dá para dizer tudo sem gritar. Microfone não é para xingar, é para dialogar”, declarou. “Sem gentileza, não pode haver cristianismo.” Para ele, o compromisso com a doutrina social da Igreja e com a justiça social permanece inegociável, ainda que isso implique pagar um preço. “Entre capitalismo e comunismo, eu escolho o diálogo”, concluiu.













