IA cria médicos falsos que difundem curas milagrosas

O avanço da inteligência artificial (IA) trouxe um novo e preocupante desafio para a saúde pública: a criação de perfis fictícios que promovem curas milagrosas e produtos sem comprovação científica nas redes sociais. Um caso recente no TikTok, que alcançou 2,2 milhões de visualizações antes de ser removido, mostrava um suposto médico afirmando que o suco de batata seria capaz de curar gastrite e a bactéria H. pylori. Especialistas alertam que esses conteúdos utilizam o formato de informações verdadeiras, mas distorcidas, para atrair um público vulnerável e vender produtos perigosos, como dióxido de cloro e suplementos minerais.

De acordo com Mario Aquino Alves, coordenador do Desinfo.Pop da FGV, a tecnologia de IA reduziu drasticamente os custos para a produção de conteúdos enganosos, facilitando a monetização por meio de visualizações e seguidores. No YouTube, por exemplo, vídeos de um senhor prometendo curar a catarata com uma mistura de alho, limão e mel têm circulado amplamente, ignorando o fato de que apenas cirurgias podem tratar essa condição. Além dos vídeos, os fraudadores utilizam grupos em plataformas como o Telegram para comercializar diretamente os produtos falsamente promovidos.

A magnitude da desinformação é revelada por dados que mostram publicações sobre diabetes e autismo alcançando milhões de compartilhamentos em grupos que desconsideram evidências científicas. Essas estratégias exploram as inseguranças dos usuários para gerar lucro financeiro, retroalimentando um ciclo de comunicação fraudulento. Em resposta, plataformas como TikTok e YouTube têm reforçado suas políticas de remoção de conteúdos que possam causar danos significativos à saúde, embora muitos canais ainda consigam manter visibilidade mesmo após perderem o poder de monetização.

Para combater esse cenário, o Conselho Federal de Medicina (CFM) anunciou o lançamento de uma plataforma própria de inteligência artificial. O sistema visa automatizar a identificação de conteúdos prejudiciais, permitindo um monitoramento mais ágil da rede. Jeancarlo Cavalcante, coordenador da comissão do CFM, destaca que o volume de desinformação é tão alto que exige métodos tecnológicos avançados para o controle efetivo.

Somando-se aos esforços de fiscalização, a Meta (responsável pelo Facebook e Instagram) comprometeu-se a utilizar verificadores de fatos para mitigar a propagação de desinformações prejudiciais. Especialistas reforçam que, além da vigilância tecnológica e da atuação das plataformas, a educação digital da população é uma etapa essencial para que os usuários aprendam a identificar e ignorar promessas de saúde que não possuem respaldo médico e científico.

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