O governo de Mato Grosso lançou, no fim de março de 2026, um plano ambicioso que promete mudar a base energética do agronegócio estadual. O Plano de Desenvolvimento Florestal e Biomassa 2026–2040 prevê triplicar a área de florestas plantadas, saindo de cerca de 200 mil hectares para 700 mil até 2040, com um objetivo direto: garantir combustível para as caldeiras das usinas de etanol de milho, setor que cresce em ritmo acelerado no estado.
A proposta surge como resposta a um problema que já bate à porta. Hoje, parte relevante da biomassa utilizada pelas indústrias ainda vem de madeira nativa oriunda de supressão vegetal autorizada. O governo reconhece que essa fonte, embora legal, não será suficiente para sustentar a expansão das usinas, que podem ser construídas em até dois anos, enquanto uma floresta de eucalipto leva pelo menos sete para atingir o ponto de corte.
Apresentado como solução sustentável, o plano aposta no plantio de florestas comerciais, principalmente eucalipto, em áreas degradadas ou de baixa produtividade. A narrativa oficial destaca benefícios como redução da pressão sobre vegetação nativa, geração de empregos e alinhamento com metas de descarbonização. Na prática, a ideia é simples: plantar madeira hoje para garantir energia amanhã e evitar que o próprio crescimento do setor vire um gargalo.
Por trás do discurso técnico, há também pressão regulatória. O Ministério Público investiga, desde 2024, o uso de madeira nativa pelas indústrias, o que acelerou a necessidade de uma alternativa mais “limpa” e previsível. O plano inclui mecanismos como Planos de Suprimento Sustentável, tentando organizar uma transição gradual, sem travar a produção e sem esgotar os recursos disponíveis.
O movimento também tem forte peso econômico. Mato Grosso já lidera a produção nacional de etanol de milho, com cerca de 10 usinas em operação e outras em fase de projeto. Empresas do setor, como grandes grupos de bioenergia, já investem em florestas próprias ou em sistemas de fomento com produtores rurais, antecipando uma demanda que só tende a crescer. A biomassa, nesse cenário, deixa de ser detalhe e vira peça central do negócio.
Apesar do tom otimista, o desafio é evidente: equilibrar a velocidade do agronegócio com o tempo da natureza. Enquanto usinas surgem em poucos anos, as florestas exigem planejamento de longo prazo, crédito, incentivos e segurança jurídica. Até lá, Mato Grosso aposta em uma equação curiosa, plantar árvores não para preservar, mas para alimentar uma indústria que não pode parar.












