A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku manifestou preocupação com o futuro dos direitos dos povos originários no Brasil diante do avanço de forças políticas de direita no Congresso Nacional. Em entrevista publicada pela Repórter Brasil nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, ela afirmou temer mudanças que enfraqueçam as garantias constitucionais e a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) na proteção dos territórios indígenas. “Estou me preocupando com a Constituição, porque é ela que nos garante saúde, educação e um território. Se mexerem na Constituição, já era para nós, povos indígenas”, declarou.
Alessandra disputou pela primeira vez uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), no Pará. Embora não tenha sido eleita, recebeu quase 30 mil votos e ficou como suplente. Segundo a reportagem, ela obteve a quarta maior votação entre os candidatos do partido no estado, que elegeu dois deputados federais. A liderança recebeu votos em 141 dos 144 municípios paraenses, apesar de ter visitado apenas dez cidades durante a campanha.
Conhecida nacional e internacionalmente pela defesa dos territórios indígenas e do meio ambiente, Alessandra construiu sua trajetória em mobilizações contra o garimpo ilegal, o avanço da produção de soja e grandes empreendimentos de infraestrutura na Amazônia. Sua atuação também foi marcada por confrontos com diferentes governos. Durante a gestão de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, ela relata ter enfrentado ameaças e ataques contra comunidades Munduruku. Segundo a liderança, sua casa foi invadida em 2019, enquanto a residência de Maria Leusa Kaba Munduruku, outra representante do povo, foi incendiada em 2022.
Ao recordar aquele período, Alessandra classificou a experiência como um momento de terror para os povos indígenas. Ela também mencionou a situação enfrentada pelos Yanomami e o avanço do garimpo ilegal em territórios tradicionais. Agora, sua preocupação está voltada às propostas que poderão avançar no Congresso e às consequências de eventuais mudanças na legislação de proteção territorial. “Quem deveria nos proteger era a Constituição, o STF, os ministros do STF. Mas até os ministros, infelizmente, a gente corre o risco de perder. Para onde vamos correr?”, questionou.
A liderança também critica projetos de mineração e garimpo em terras indígenas, por considerar que essas atividades ameaçam os rios, a floresta e a saúde das comunidades. Ela destaca os riscos da contaminação por mercúrio utilizado na extração ilegal de ouro. A substância pode chegar aos cursos d’água, contaminar peixes e atingir populações indígenas e ribeirinhas que dependem desses alimentos. Alessandra relata preocupação com problemas de saúde entre crianças Munduruku e defende o fortalecimento da assistência sanitária nos territórios.
Outra frente de atuação envolve a oposição à Ferrogrão, projeto ferroviário planejado para transportar grãos do norte de Mato Grosso ao sudoeste do Pará. A iniciativa é defendida como alternativa logística para o escoamento da produção agrícola, mas enfrenta críticas de lideranças indígenas e organizações socioambientais pelos possíveis impactos sobre áreas protegidas e territórios tradicionais. Alessandra avalia que grandes empreendimentos ligados ao agronegócio frequentemente avançam sem ouvir adequadamente as comunidades afetadas.
Em janeiro de 2026, ela participou de uma ocupação que durou mais de 30 dias no terminal da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará. A mobilização protestava contra um decreto do governo Lula relacionado à ampliação da dragagem do rio Tapajós, medida destinada a permitir a circulação de embarcações de maior porte para o transporte de soja. O episódio evidencia que a liderança mantém uma postura crítica mesmo diante de um governo ao qual se vinculou partidariamente.
Apesar dos embates com administrações petistas, Alessandra decidiu concorrer pelo PT para ampliar a participação indígena nas decisões políticas. Ela afirmou à Repórter Brasil que não se arrepende de ter ingressado no partido, pois considera necessário ocupar espaços institucionais para pressionar os governantes e defender os interesses das comunidades. Na avaliação da liderança, as políticas públicas precisam ser construídas com a participação dos povos indígenas, quilombolas, pescadores, professores e demais grupos afetados pelas decisões do poder público.
A campanha também foi marcada por dificuldades financeiras e pelo apoio de militantes e professores que se identificaram com suas pautas. Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral mencionados na reportagem, a candidatura recebeu R$ 1 milhão da direção nacional do PT, valor que, de acordo com Alessandra, foi utilizado principalmente em comunicação. Para ela, a experiência eleitoral demonstrou a importância de ampliar a presença de representantes comprometidos com as demandas das comunidades.
Com o segundo turno presidencial no horizonte, a liderança também manifestou preocupação com as condições de deslocamento de eleitores indígenas que vivem em aldeias distantes dos locais de votação. Ela afirma que a falta de recursos e de transporte pode impedir a participação de comunidades que precisam percorrer longas distâncias para exercer o direito ao voto. Alessandra defende que os povos originários tenham condições efetivas de participar das eleições, independentemente do candidato ou partido escolhido.
A trajetória de Alessandra Munduruku evidencia os desafios enfrentados por lideranças indígenas que buscam conciliar mobilização social, proteção ambiental e participação institucional. Suas declarações colocam em destaque o debate sobre a preservação dos direitos previstos na Constituição, a demarcação de terras, os impactos de grandes projetos econômicos e a representação política dos povos originários. A preocupação central da liderança é que eventuais mudanças legislativas reduzam as garantias que asseguram aos indígenas o direito aos seus territórios, à saúde, à educação e à continuidade de seus modos de vida.













