Quase metade dos autores de feminicídio em Mato Grosso já possuía registros policiais antes de matar a parceira ou ex-parceira, segundo dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). O painel reúne informações da série histórica iniciada em 2019 e aponta que 48% dos 382 autores e coautores identificados nos casos analisados tinham ocorrências policiais anteriores ao feminicídio.
Entre os autores que já possuíam registros, 143 tinham de uma a três ocorrências anteriores. Em 67% desses casos, os registros estavam relacionados à violência doméstica e familiar. O levantamento considera ocorrências envolvendo ameaça, lesão corporal, injúria, violência psicológica, descumprimento de medidas protetivas e perseguição, além de outros crimes.
A série histórica contabiliza 377 vítimas de feminicídio entre 2019 e 2026. Foram identificados 364 autores diretos e 18 coautores, totalizando 382 pessoas. Em sete casos, a autoria ainda não havia sido identificada. Segundo os dados apresentados pelo Observatório Caliandra, 98% dos feminicídios com autoria identificada foram elucidados e encaminhados para ação penal.
O painel também apresenta informações sobre o perfil dos autores e o vínculo com as vítimas. A faixa etária com maior número de registros é de 30 a 34 anos, com 57 casos, correspondentes a 14,69% do total. Em relação ao vínculo, 289 autores eram companheiros, namorados ou ex-parceiros das vítimas.
Um recorte específico dos casos registrados em 2026 mostra uma proporção diferente da série histórica. Até setembro deste ano, foram identificados 39 autores de feminicídio e, desse grupo, 28 já possuíam antecedentes criminais, o equivalente a 71,79%. Esse percentual corresponde exclusivamente aos casos registrados em 2026 até setembro e não deve ser aplicado à totalidade da série histórica.
Para a promotora de Justiça Claire Vogel Dutra, os registros anteriores podem contribuir para identificar históricos de violência e auxiliar na atuação preventiva. Segundo ela, a violência anterior contra mulheres aparece como elemento recorrente na trajetória de parte dos autores e os dados podem ajudar no aperfeiçoamento dos mecanismos de proteção.
O Observatório Caliandra reúne informações sobre idade, cor ou raça, escolaridade, registros policiais anteriores e vínculo entre autores e vítimas. O sistema também permite acompanhar a evolução dos casos e, segundo o Ministério Público, deverá receber atualizações conforme novas ocorrências sejam registradas e as investigações avancem.
Os dados do painel não significam que todo autor com registro policial anterior tenha necessariamente praticado violência contra a futura vítima. O levantamento apenas identifica a existência de ocorrências anteriores registradas pelas autoridades e permite analisar a frequência desse fator entre os casos de feminicídio considerados na série histórica.













