O anúncio do reajuste das passagens do Trem de Passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), previsto para 10 de dezembro de 2025, reacendeu um debate que vai além dos preços. Em um país onde as ferrovias praticamente desapareceram do transporte de passageiros, a simples existência do trem que liga Belo Horizonte a Cariacica já é, por si só, um fato extraordinário e uma herança viva que resiste há mais de um século.
Operado pela Vale, o serviço percorre cerca de 664 quilômetros, atravessando cidades grandes, municípios médios e pequenas comunidades que nasceram e cresceram ao redor dos trilhos. Para muita gente ao longo da linha, o trem não é um passeio: é transporte essencial, acessível e, principalmente, confiável. Enquanto o país se apoia quase exclusivamente em ônibus e aviões, a EFVM mantém um modo de viajar que combina custo baixo, integração regional e uma conexão cultural profunda.
Hoje, apenas duas linhas ferroviárias transportam passageiros regularmente no Brasil: a Vitória–Minas e a Estrada de Ferro Carajás, também da Vale. O reajuste tarifário, previsto pela ANTT, é rotineiro. O que não deveria se perder de vista é o fato de que esse trem ainda opere, diariamente, cruzando estados com regularidade e estrutura incomuns no cenário ferroviário brasileiro.
Todos os dias às 7h, um trem parte de Belo Horizonte e outro de Cariacica, encontrando no caminho dezenas de localidades que dependem dessa ligação. A viagem dura cerca de 13 horas e meia e oferece vagões climatizados, lanchonete, restaurante, carro para cadeirantes e serviço de bordo. Mais do que o conforto, impressiona a constância: é uma operação que, ao contrário da maioria dos projetos ferroviários nacionais, não sucumbiu ao abandono.

Essa permanência ganha ainda mais contraste quando se observa que, no mundo, há um movimento de retomada das viagens sobre trilhos, enquanto no Brasil restam apenas experiências pontuais e isoladas. Uma delas é o trem turístico entre Ouro Preto e Mariana, também mantido pela Vale. Revitalizado entre 2004 e 2006, o percurso de 18 quilômetros aproveita o traçado original da ferrovia de 1883. Os vagões preservam o desenho histórico e têm interiores em madeira, com janelas amplas que permitem acompanhar integralmente a paisagem da Serra do Espinhaço, uma viagem curta no tempo e na memória ferroviária mineira.
O passeio inclui ainda peças históricas preservadas. Em Mariana, o visitante encontra a locomotiva Skoda 201, fabricada em 1949, que chegava a 60 km/h. Já na estação de Ouro Preto está exposta a Brigardier, ou Máquina 3, construída na Alemanha e usada inicialmente para fins militares na Primeira Guerra Mundial, antes de ser incorporada a serviços de carga no Brasil. São raros testemunhos de um país que já teve mais de 30 mil quilômetros de trilhos ativos.
No caso da EFVM, enquanto o novo valor ainda não foi divulgado, permanece a referência atual: R$ 81 no trajeto completo entre Cariacica e Belo Horizonte na classe econômica. O reajuste é apenas mais um passo dentro de uma operação que segue desafiando a lógica do abandono ferroviário no país. O ponto central é que o trem continua de pé, ligando pessoas, servindo comunidades e preservando uma cultura ferroviária que, sem iniciativas como essa, já teria desaparecido por completo.













