Uma descoberta arqueológica rara em Tanis, antiga capital egípcia localizada no Delta do Nilo, permitiu identificar o faraó sepultado em um túmulo há quase três mil anos. Uma missão francesa encontrou 225 estatuetas funerárias, os chamados ushabti, dispostas de forma intacta ao lado de um grande sarcófago sem nome, solucionando um enigma que intrigava pesquisadores há décadas.
A revelação foi anunciada pelo egiptólogo francês Frédéric Payraudeau, que classificou a descoberta como inédita na necrópole de Tanis desde 1946. Nem mesmo no Vale dos Reis, local dos túmulos mais famosos do Egito, achados semelhantes foram registrados após 1922, quando a tumba de Tutankhamon foi encontrada com seu conjunto completo de artefatos.
A equipe trabalhava desde o início do ano em um túmulo estreito que abrigava um sarcófago imponente, mas sem inscrições. Na manhã de 9 de outubro, Payraudeau e seus colegas localizaram as primeiras estatuetas agrupadas em um dos cantos. O que parecia uma descoberta pontual revelou-se um conjunto extraordinário, exigindo dez dias de trabalho contínuo para retirar cuidadosamente todas as peças.
As estatuetas estavam organizadas em formato de estrela e enfileiradas no fundo da cova trapezoidal. Mais da metade representam figuras femininas, algo excepcional segundo o arqueólogo. Os ushabti eram colocados nos túmulos para acompanhar o morto na vida após a morte, executando simbolicamente tarefas em seu nome.
O símbolo real inscrito nas peças solucionou a identidade de quem foi sepultado no sarcófago: o faraó Shoshenq III, governante que reinou entre 830 e 791 a.C. A confirmação surpreendeu a equipe, já que outro túmulo no local, maior e mais elaborado, trazia o nome do mesmo faraó e sempre foi considerado seu local de descanso final.
Pesquisadores agora trabalham com duas hipóteses. A primeira é que a sucessão turbulenta, marcada por conflitos entre o Alto e o Baixo Egito, com vários pretendentes ao trono, tenha impedido que Shoshenq III fosse enterrado onde planejado. A segunda possibilidade é que seu corpo tenha sido realocado após saques à necrópole, prática comum na Antiguidade. Ainda assim, Payraudeau considera improvável que um sarcófago de granito com 3,5 metros de comprimento pudesse ter sido movido para o espaço exíguo onde foi encontrado.
As estatuetas serão analisadas detalhadamente antes de seguirem para exposição em um museu do Egito. Para os arqueólogos, o conjunto representa não apenas uma descoberta rara, mas também uma peça-chave para compreender um período marcado por instabilidade política e mudanças na administração funerária do país.












