A Justiça do Rio de Janeiro decretou, na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, o encerramento da recuperação judicial do Grupo Americanas, iniciado em janeiro de 2023 após a revelação de inconsistências contábeis que provocaram uma crise de aproximadamente R$ 20 bilhões. A decisão foi tomada pela 4ª Vara Empresarial da capital fluminense, após manifestações favoráveis da administração judicial e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A sentença reconheceu o cumprimento das obrigações previstas no plano de recuperação no período analisado, permitindo que a companhia avance para uma nova etapa de sua reestruturação financeira.
O processo de recuperação judicial começou em meio a uma das maiores crises da história recente do varejo brasileiro. Em janeiro de 2023, a empresa comunicou a identificação de inconsistências contábeis inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões. Na sequência, apresentou à Justiça um pedido de recuperação judicial, informando dívidas de aproximadamente R$ 43 bilhões. O plano foi aprovado pelos credores em dezembro de 2023 e homologado judicialmente em fevereiro de 2024, estabelecendo condições para a renegociação dos débitos e a continuidade das operações.
Segundo a Americanas, o plano de recuperação foi aprovado por 91% dos credores e as metas previstas foram cumpridas. A companhia também informou que, no primeiro semestre de 2026, registrou crescimento de 9,3% nas vendas nas mesmas lojas e ganhos de R$ 500 milhões em eficiência operacional. Em comunicado ao mercado, a empresa afirmou que o encerramento representa um marco importante em sua trajetória e inaugura uma nova etapa dos negócios, com foco no crescimento das operações e no fortalecimento do modelo comercial.
A decisão judicial, entretanto, não encerra todas as disputas relacionadas à crise. Credores que considerem ter sido prejudicados por eventual descumprimento de obrigações previstas no plano poderão buscar medidas judiciais específicas. A sentença também está sujeita a recursos. Com o encerramento do processo, deverá ser retirada a expressão “em recuperação judicial” das denominações oficiais das empresas abrangidas pela decisão, conforme os procedimentos determinados pela Justiça.
Enquanto a companhia avança na reestruturação financeira, as investigações sobre a fraude contábil continuam. Em 16 de outubro de 2026, a Justiça Federal do Rio de Janeiro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal contra 12 ex-executivos da varejista, que passaram à condição de réus. Eles são acusados de envolvimento em irregularidades que teriam incluído a apresentação de informações contábeis falsas e a ocultação de operações financeiras. Entre os denunciados está o ex-presidente-executivo Miguel Gutierrez. As acusações ainda serão examinadas no processo criminal, e os réus têm direito à ampla defesa.
O caso também continua sob escrutínio de autoridades reguladoras e profissionais. Na mesma semana, o Conselho Federal de Contabilidade confirmou a cassação do registro profissional da ex-contadora da Americanas Flávia Pereira Carneiro, que assinou demonstrações contábeis de 2020 e 2021. A decisão disciplinar inclui ainda suspensão profissional de dois anos e censura pública, cabendo os recursos previstos no procedimento. A contadora colaborou com as investigações por meio de acordo de delação premiada.
No mercado financeiro, as ações da Americanas fecharam o pregão de 19 de outubro cotadas a R$ 5,97, com valorização próxima de 7%. A reação ocorreu após a divulgação do encerramento da recuperação judicial, embora o desempenho de um único pregão não seja suficiente para determinar a recuperação definitiva da companhia. A conclusão do processo representa um marco jurídico e financeiro, mas a consolidação da empresa dependerá da manutenção dos resultados operacionais, do cumprimento das obrigações remanescentes e do andamento das ações judiciais relacionadas à crise.













