Nordeste atrai bilhões e se prepara para virar potência brasileira em data centers

O Nordeste brasileiro avança na disputa por investimentos em centros de processamento de dados, impulsionado pela expansão da inteligência artificial, pela demanda por serviços digitais e pela disponibilidade de energia renovável. Publicada nesta sexta-feira (16), a reportagem da CNN Brasil destaca o potencial da região para ampliar sua participação no mercado nacional de data centers, setor estratégico para serviços de computação em nuvem, armazenamento de informações e aplicações de inteligência artificial.

As perspectivas de crescimento são expressivas. Segundo projeção da Tendências Consultoria divulgada em junho, o Produto Interno Bruto (PIB) nordestino poderá crescer 3,3% ao ano entre 2028 e 2035, acima dos 2,4% projetados para a economia brasileira no mesmo período. A região também registrou expansão econômica de 2,5% entre agosto de 2025 e julho de 2026, conforme análise do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao Banco do Nordeste. O resultado superou a média nacional, de 1,5%.

A infraestrutura energética é um dos principais diferenciais competitivos. A geração eólica e solar oferece condições favoráveis à instalação de empreendimentos que exigem fornecimento contínuo de eletricidade. Segundo projeção da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mencionada pela CNN Brasil, o Nordeste poderá atrair quase 30% dos novos investimentos em data centers de grande porte. Em escala nacional, o mercado brasileiro deverá dobrar sua capacidade até 2030. Dos 660 megawatts (MW) em construção no país, 56% já estão pré-locados, indicando que parte significativa da capacidade futura foi contratada antes da conclusão das obras.

Fortaleza, no Ceará, já ocupa posição de destaque nesse cenário. O data center TFOR3, conhecido como “Mega Lobster”, pertence à Tecto Data Centers, plataforma controlada pelo BTG Pactual e ligada à V.tal. Inaugurado em outubro de 2025, na Praia do Futuro, o empreendimento tem capacidade final prevista de 20 MW. A empresa planeja elevar a capacidade inicial de 4 MW para 8 MW até o início de 2027 e estima investir US$ 2 bilhões entre 2026 e 2028 na expansão de suas operações na América Latina. A estrutura foi projetada para atender serviços de inteligência artificial, computação em nuvem e distribuição de conteúdo digital.

Outro projeto de grande porte está em desenvolvimento no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, também no Ceará. A Omnia constrói um data center destinado a atender à ByteDance, proprietária do TikTok. A primeira fase está prevista para alcançar 200 MW de capacidade, com início de operação esperado para 2027. Separadamente, a empresa francesa Voltalia recebeu autorização para desenvolver um empreendimento de 322,5 MW no complexo, com investimento total previsto de R$ 181,7 bilhões, conforme informações divulgadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços em agosto. O projeto da Voltalia prevê a implantação de geração eólica dedicada e a utilização de água de reuso para resfriamento dos equipamentos.

O ambiente regulatório também passou por uma mudança importante em setembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), instituído pela Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026. O programa prevê incentivos fiscais para equipamentos utilizados na implantação, modernização e ampliação dos centros de dados, além de contrapartidas relacionadas à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico, ao atendimento do mercado brasileiro e à sustentabilidade. A legislação estabelece condições diferenciadas para empreendimentos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com o objetivo de estimular a descentralização dos investimentos.

Apesar das oportunidades, a expansão do setor depende de melhorias na infraestrutura de transmissão de energia e de regras que assegurem a sustentabilidade dos empreendimentos. A concentração de novos consumidores em determinadas áreas pode exigir investimentos adicionais na rede elétrica, enquanto a disponibilidade de água e os custos de operação também precisam ser considerados. Gilberto Feldman, CEO da Engeform, afirmou à CNN Brasil que a instalação de data centers pode ajudar a absorver excedentes de eletricidade e reduzir cortes de geração em usinas eólicas e solares. O executivo, entretanto, ressaltou a necessidade de ampliar a capacidade de transmissão e proteger os pequenos consumidores de eventuais impactos tarifários.

O planejamento energético nacional já incorpora esse desafio. Em 8 de outubro, o Ministério de Minas e Energia e a EPE abriram consulta pública sobre o Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, que contempla mudanças na demanda elétrica, o crescimento de novas tecnologias e a necessidade de ampliar a flexibilidade do sistema. As contribuições podem ser enviadas até 6 de novembro. O avanço dos data centers no Nordeste dependerá, portanto, não apenas da atração de capital e da oferta de energia renovável, mas também da capacidade de transformar esses recursos em infraestrutura digital competitiva, com segurança energética, benefícios econômicos regionais e proteção aos consumidores.

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